A menina mais inteligente da sala

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Vanessa e Manuela são amigas inseparáveis. Desde os cinco anos de idade, quando seus pais se tornaram vizinhos, as duas meninas compartilham momentos, roupas, viagens, festas, cinemas, decepções. Na escola, andam sempre juntas, em seu universo particular, onde só existem os sonhos de fazer um mochilão pela Europa, a paixão por John Mayer e por brigadeiro com leite em pó. As amigas têm até uma linguagem secreta, indecifrável, aprimorada ao longo dos anos. Passam longas tardes assistindo aos seriados favoritos, admirando vitrines no shopping, traçando planos para o futuro nos cadernos escolares e sussurrando segredos entre os dentes enfeitados pelos aparelhos que colocaram no mesmo dia.

Seus pais acham graça ao vê-las vestidas com roupas parecidas, como se fossem irmãs gêmeas. Algumas pessoas se confundem ao cumprimentá-las, por serem tão semelhantes em sua maneira de agir e de se vestir. Uma é quase a extensão da outra. Exceto pelo fato de Manuela sempre tirar as notas mais altas da sala.

Vanessa não consegue compreender esse mistério, pois elas sempre estudaram juntas. Manuela, mais rápida na hora de aprender coisas novas, ajuda a melhor amiga a entender as disciplinas e os assuntos nos quais tem dificuldade. No terceiro ano do ensino fundamental, elas fizeram um pacto de jamais colarem em provas e de sempre se apoiarem em caso de problemas com os estudos.

Irritada com suas notas medianas, Vanessa se sente inútil diante da inteligência da amiga. Seria mais fácil ajudá-la com roupas, meninos, música e esportes do que com os deveres escolares. Ainda assim, esse não era um bom motivo para causar atritos entre as duas, pelo menos não até o ensino médio, quando tudo se tornou mais complicado e o espírito competitivo passou a pairar como uma nuvem carregada na atmosfera da sala de aula.

Em segredo, Vanessa passa a desejar o cérebro de sua melhor amiga. É sempre Manuela que faz as perguntas mais intrigantes e cativa os professores com sua astúcia e sua natureza curiosa e questionadora. Manuela é presidente da classe, queridinha dos professores, enquanto Vanessa não passa de uma aluna medíocre, constantemente chamada à sala da coordenadora por seu desempenho insatisfatório nas aulas.

A verdade é que Vanessa se sente acuada, envergonhada por não conseguir produzir coisas incríveis como a amiga, principalmente quando os pais estão presentes. Nas feiras de ciências, Manuela apresenta projetos inovadores, enquanto Vanessa não consegue ir muito além dos rotineiros e batidos cartazes ou apresentações em Power Point.

Para os professores e orientadores vocacionais, Manuela é um exemplo de sucesso a ser seguido, o parâmetro no qual todos os estudantes devem se espelhar. Enquanto isso, Vanessa sente-se o maior fracasso do universo. A sensação que a invade é de ter decepcionado a amiga, falhado como ser humano e, no alto de sua crise existencial adolescente, o peso de toda essa falta de destaque a corrói como uma decepção amorosa incurável. Traiu o pacto ao colar na última prova do bimestre, ao não pedir a ajuda da amiga que, nos últimos tempos, está sempre ocupada demais para estudar em sua casa.

Os holofotes estão todos sobre Manuela, a nova superestrela do mundo escolar e, embora isso não afetasse Vanessa antes, o ciúme da melhor amiga agora é o sentimento mais forte. Tão intenso que a faz chorar em silêncio todos os dias em seu quarto. Apesar de tudo, ela não consegue sentir raiva de Manu, sua irmã de tantos anos. A vida é injusta, só isso.

O que Vanessa não sabia é que sua vida sofreria uma mudança extrema. Em seu aniversário de dezesseis anos, organizou uma festa enorme. Chamou toda a escola, uma banda de rock da cidade, seus primos, os colegas do bairro. Enquanto soprava as velinhas, com Manuela a seu lado, sorridente e orgulhosa, a adolescente desejou ser a menina mais inteligente da sala, ser um motivo de alegria e satisfação para seus pais. Desejou, com toda a alma, a aprovação dos professores. E, por fim, olhando nos olhos de Manu, com uma lágrima presa nos cílios, desejou compartilhar seu DNA e seus dotes intelectuais para, ao menos uma vez na vida, não se sentir tão burra e estúpida, incapaz de tirar uma nota acima da média.

Vanessa conversava eloquentemente com os colegas sobre a nova pista de patinação que fora montada no bairro, quando sentiu os olhos de Manu pousarem sobre si. Virou-se discretamente e lá estava a amiga, isolada, segurando um copo de refrigerante e ajeitando os pesados óculos, que lhe conferiam um aspecto ainda mais encantador e intelectual.

Manuela lançou um sorriso discreto para a amiga, acenando com olhar de aprovação. Um sentimento estranho tomou conta dela e desmanchou seu belo sorriso. Todos os dias, desde que se tornara presidente da classe, sentia saudades das tardes ociosas junto da amiga. A pressão de ser o modelo para todos na escola era aterradora. Chorava todas as noites, no escuro de seu quarto.

Vanessa parecia tão despreocupada e feliz, enquanto ela, a nerd, sentia-se cada vez mais solitária e esquecida, não fosse pelos pedidos de ajuda dos colegas nas épocas de prova ou de entregas de trabalho. Não poderia ficar até o fim da festa, precisava acordar cedo no dia seguinte e cumprir os seus deveres, que se acumulavam sobre sua escrivaninha a cada minuto que passava.

Despediu-se da amiga com pesar, e, mesmo após Vanessa tentar convencê-la a ficar mais um pouco, Manuela partiu. Assim que colocou os pés para fora da casa da amiga, deixou as lágrimas rolarem soltas pelo rosto corado. Olhando para o céu estrelado daquela bela noite festiva, Manu desejou, com toda força de sua alma, ter a vida de Vanessa. Viver sem as amarras da pressão dos pais e da sociedade, ser livre, feliz e sem planos. Desejou, mais do que tudo, ter a coragem para voltar a ser a menina que costumava ser, sonhadora e apaixonada pelas coisas simples da vida. Acima de tudo, desejou não ser assim, tão inteligente. Trocaria todos os seus neurônios pela alegria que vira nos rostos dos colegas que admiravam tanto sua melhor amiga, a menina mais extrovertida da sala.

 

Texto por Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga

Autoria da imagem : Jamie Taylor, via unsplash.com

 

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