Idealizações como problemas

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Eu evito criar expectativas sobre como as pessoas e a sociedade deveriam ser. Evito porque ninguém, absolutamente ninguém, vai viver pra corresponder aos meus ideais. Percebo a tendência cada vez mais normalizada de eu classificar pessoas pelo tanto que elas se parecem ou não com o meu reflexo no espelho, e isso me assusta.

É normal ter dificuldade pra conviver com a diferença. É aceitável ficar perplexa quando uma pessoa profere um discurso de ódio, como se dissesse algo normal, depois que eu já desnaturalizei tudo isso. O problema começa quando a pessoa é tão boa quando o seu discurso soa aos meus ouvidos. E eu aprecio ouvir a medida que as palavras dela estão mais assemelhadas ao que eu diria.

Se alguém fez uma coisa que eu discordo, portanto, preciso dar um lacre, fazer essa pessoa se calar, mostrar que a razão pertence ao meu lado, a quem é como eu sou. Também é imprescindível repudiar, menosprezar, parar de falar com esse alguém, afinal, afirmar quem eu sou é mais importante do que o encontro genuíno. Leia mais… »

Nos deixem em paz

Machismo não é piada

 

Ser mulher é minha ótica. É como eu vejo o mundo. É quem eu sou e o que eu sou. São as mulheres que me inspiram, são elas que me influenciam. Eu sou composta por muitas mulheres.

É por isso que os feminicídios mexem tanto com meus sentidos. É por isso que o assédio é mais dolorido quando eu escuto.

É por isso que a vulnerabilidade da mulher é tão notável diante dos meus olhos.

Eu vejo o mundo dentro do corpo de uma mulher. E isso não tem como mudar.

Quando um grupo de brasileiros, representando minha nacionalidade, sai do meu país (que apesar dos pesares, tenho tanto orgulho) para atacar agressivamente mulheres em outro país, isso me corrói por dentro. Leia mais… »

É lindo ser a gente

 

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Fazia tempo que uma premiação do Oscar não me deixava tão empolgada quanto a estatueta de melhor atriz para Francis Mc Dormand esse ano. Eu havia assistido Três anúncios para um crime na semana anterior e saído do cinema tão impactada com sua atuação que até esqueci que a Meryl Streep concorria na mesma categoria.

E sobre o discurso dela então, nem se fala :Francis foi sincera, cheia de energia, chamou as mulheres indicadas para se levantarem, colocou a estatueta no chão para ter uma perspectiva melhor. Um momento para ficar na história da cerimônia e apagar a opinião desnecessária do crítico, que na falta de algo melhor a dizer, citou a aparência de Francis como se fosse algo decisivo para a profissional fantástica que ela é. Leia mais… »

Evaporar

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Da primeira vez que Renata apanhou do marido, o tapa não doeu tanto na carne. O corpo já estava calejado pela vida, pelo peso dos filhos, dos dois empregos, das faxinas. A dor foi dentro, ao ver os olhos enfurecidos do homem que prometera amá-la sem ressalvas. Robson, um cara tranquilo, carinhoso, dedicado. Foi um choque.

Manteve o episódio em segredo, principalmente depois que Robson passou a ser carinhoso como nunca. Era como se naquele dia ele estivesse possuído por algum espírito maligno. Renata rezou, e por dois anos tentou passar uma borracha em sua alma, apagando a marca dos dedos do marido.  Leia mais… »