Cara limpa

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Não costumo sair de casa sem batom. Embora meu estojo de maquiagens esteja criando teias de aranha – rímel, sombras, delineador, todos esquecidos no fundo do armário – a cor nos lábios é quase um imperativo. Uma obrigação de cuidado comigo, de causar impacto, marcar presença. Compromisso firmado de nunca sair de casa sem ele. Ou eles, já que em cada bolsa carrego uns quatro ou cinco. Uma coleção de guarda-chuvas contra a cara abatida e os olhares de nossa, você está tão cansada ou que foi? está doente?. Porque, no imaginário de quem nos analisa, sem maquiagem também significa alguma maquiagem. Uma base leve, um batom rosado “cor de boca”, rímel transparente, lápis branco, blush clarinho. Colocando produtos para parecer que está com a cara limpa.

Acho que só vejo meu rosto totalmente limpo quando acordo. Acostumei tanto com ele fantasiado de vermelho, lilás ou cor de vinho – e, ocasionalmente, preto – que quase não me reconheço ao ver a cor natural dos lábios refletida no espelho. O reflexo, nestes casos, é semelhante a uma antiga fotografia em preto e branco, com a iluminação estourada, um fantasma com baixo contraste.

Tenho as sobrancelhas muito claras. São quase dois vultos de penugem acima dos olhos, de tão finas e frágeis. Sempre as achei normais, bonitas, até. Aparentemente, o mundo pensa o contrário. Decidi, então, começar a tingir os pelos com hena, e isso trouxe uma nova expressão ao meu rosto. Como se eu fosse uma mulher séria, arrojada, digna de uma revista de moda. Mas, assim que a tinta começa a perder a intensidade, volto a me encarar com desconfiança. Talvez eu devesse tatuar esta região do rosto, com as técnicas modernas que me oferecem. Nem assim a cor é permanente, necessita de retoques constantes.

A beleza, conforme a idealizamos, é fugaz. Tanto a hena quanto o batom desbotam com o tempo. A pigmentação permanente se transforma numa sombra enfraquecida. O aspecto de alegria e vivacidade é jogado no lixo em bolas de algodão embebidas em demaquilante. Com as sobrancelhas apagadas e os lábios descoloridos, sinto que tenho dúvidas sobre quem sou. Este rosto bege e desprovido de traços marcantes, essa ausência de bochechas rosadas, esse olhar caído e estranhamente natural – sou eu, de verdade? Vejo um rosto pálido, a boca descorada, os olhos sem moldura – por que dependo tanto de artifícios para sentir que existo?

Tive que tirar isso a limpo. Há alguns meses, parei reforçar a cor das sobrancelhas. Esqueço o batom em casa em diversas situações. Encontro semelhanças entre o espelho e a imagem que vejo quando fecho os olhos e penso em mim. Um rosto sem maquiagem é também uma forma de se proteger contra o mundo, um elmo translúcido num campo de batalha imaterial.

Com a nudez da face, revelo a verdade sobre minha pele e, por consequência, confesso a minha própria existência. De cara limpa, conquisto a minha autoconfiança subindo por degraus trêmulos, que se firmam a cada passo. Esta mulher de rosto nu sou eu, aquela com os lábios pintados também. Somos várias e uma só, cada qual com sua máscara.

 

Texto por  Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga 

 

 

Créditos da imagem: Aquarela de Agnes Cecile (agnes-cecile.deviantart.com)

 

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