Comportamento naturalizado nas redes sociais

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No final do ano passado postei um texto aqui no blog sobre o meu período de desapego das redes sociais. Fiquei um mês sem entrar no Facebook e tive grandes insights. Dali por diante o meu modo de usar as redes começou a mudar. Eu não sentia mais vontade de entrar na maioria das discussões, deixei de seguir uma porção de pessoas e de páginas, saí de vários grupos… Durante algum tempo fui assim, readaptando esse espaço virtual a pessoa que eu era depois daquela experiência. Eu voltei a usar, aos poucos, essa ferramenta como uma usuária mediana, mas com muito mais consciência e uma capacidade muito maior de tornar a rede uma experiência que fosse mais a minha cara e correspondesse aos meus desejos.

Nesse período de tempo eu também conheci o Instagram. Ganhei um novo celular, com fotos muito melhores e uma memória maior, e agora se tornava possível usar essa nova rede social. No começo achei o Instagram muito melhor e muito mais pacífico que o Facebook. Mas depois fui perceber que ali as pessoas não eram mais deboístas e nem estavam mais confortáveis com a própria existência. As máscaras só são maiores e melhores. Entrei novamente em processo de reflexão sobre o uso das redes, só que sem a abstinência. Dessa vez eu precisava compreender os modos de agir naturalizados nas redes sociais, o que era nocivo neles e o que porventura poderia mudar para que essa experiência fosse mais satisfatória. Então, eu precisava estar lá, observar e até testar alguns comportamentos para tirar as minhas próprias conclusões.

Concluí que o uso desses espaços do mundo virtual fala mais da própria afirmação egóica do que uma troca de experiências propriamente dita. É muito mais sobre dizer quem você é, mostrar que você tem uma boa vida, que você sabe bem o que está fazendo. Eu até acreditaria nisso se não estudasse psicologia… Na boa, ninguém é assim. Ninguém é essa suposta segurança inabalável e essa plenitude de existir o tempo inteiro. A prova disso é o tanto que precisamos do olhar do outro nesses espaços pra sentir que pertencemos a um grupo, às vezes pra sentir que nós existimos. E não, isso não é necessariamente ruim. Fomos literalmente ensinados a pensar pelo nosso contexto cultural, pelo momento histórico e pelo lugar do mundo em que estamos, que ser um indivíduo único e suficiente em si mesmo não só é algo possível, como é algo bom e que deve ser buscado.

Isso também não é necessariamente ruim. Mas esse pensamento é tão naturalizado que talvez você nunca nem tenha sequer questionado e trate isso como uma verdade absoluta e universal. De todo modo, vivemos com isso. E um ponto que talvez seja negativo e até ilógico dessa rede que é social, mas é pra si mesmo, é o fato de usarmos o botão compartilhar pra espalhar um excesso de informações totalmente desnecessárias e que não vão dizer nada que as pessoas precisam ouvir. Ou que usamos a rede pra dizer cada pensamento aleatório, mostrar o nosso rosto em vários ângulos diferentes, mandar indiretas que apenas a pessoa a quem for direcionada vai entender… É porque não usamos esse espaço pra nos conectar uns com os outros, e sim pra dizer aos outros o que nós somos. Relembrar ao mundo que existimos, que queremos ser ouvidos e que precisamos nos sentir pertencentes na sociedade.

Então a ficha que eu queria caiu: pra melhorar o uso das redes sociais eu preciso sair desse comportamento automático e começar a usar esse espaço para trocas mais genuínas. Comecei a pensar em que tipo de conteúdo eu estava compartilhando. Se aquilo que eu estava dizendo realmente ia acrescentar algo na vida das pessoas. Não é que eu queira agora postar apenas grandes reflexões filosóficas e falar do sentido da vida, mas não faz sentido sequer postar algo engraçado se eu não imaginar que aquilo também vai tirar boas risadas daqueles que vão ver. Que sentido há também, por exemplo, em falar num tom que só vai favorecer a comunicação com aqueles que concordam comigo? Parece óbvio dizer que aquilo que não vai despertar nenhum interesse no outro usuário da rede não deveria ser dito. Mas com o tipo de conteúdo que acessamos, se faz totalmente necessário.

E é claro que se eu estou aberta a algo mais autêntico, eu preciso falar do lugar da pessoa que sou, que estou realmente sendo aqui e agora, daquilo que realmente acontece comigo e dentro de mim. Por isso, é importante observar o conteúdo das minhas postagens e me questionar: “que tipo de pessoa eu quero dizer que sou com essa postagem?” E com certeza o mais importante: “essa é realmente a pessoa que sou de fato?”. Quem quer estar aberto a trocas genuínas precisa estar disposto a pagar o preço por isso, o preço de perder alguns likes, de não parecer tão interessante pra algumas pessoas que desejam apenas consumir aquilo que elas querem ver, e até de mostrar lados seus que nem você gosta muito de ver.

Mas é óbvio que de nenhuma forma isso significa que eu preciso expor todos os detalhes da minha vida – até porque nem tudo que eu faço, penso e sinto é interessante para alguém-  afinal o quanto da minha vida eu quero mostrar naquele espaço? Que tipo de consequências podem aparecer pra mim expondo tais conflitos, mandando aquelas indiretas ou dando aqueles detalhes da minha vida pra todas aquelas centenas ou milhares de pessoas que estão me vendo? Se o post mostra algo que eu prefiro deixar para os meus amigos mais íntimos, algo que pode ser resolvido numa conversa a dois, algo que meu terapeuta ficará mais feliz em saber, talvez seja melhor reconsiderar a postagem.

Pode parecer chato ter que refletir tanto antes de postar, ainda mais no ritmo acelerado em que nos encontramos. Também pode parecer perigoso e amedrontador pra quem ainda não sabe muito bem o que os outros vão pensar disso. Mas depois de um tempo conectada ao propósito que me mantém nas redes, eu sei o tipo de valor que essa conexão tem pra mim e posso ser mais livre dentro desse espaço virtual. Livre das prisões do comportamento naturalizado.

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

Autoria da Imagem: desconhecida

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