Consciência de si e Consciência de Classe

Essa semana eu comecei a me envolver pelas armadilhas do medo quando começaram a falar da questão da PM. Mais especificamente quando disseram que aconteceria o mesmo na minha cidade. Eu moro num bairro perigoso, e comecei a avaliar com seriedade o quanto eu deveria temer pela minha vida.

Eu desenvolvi o costume de falar com as pessoas sobre o que estou pensando e sentindo com sinceridade e espontaneidade, o que vem me trazendo muitos frutos positivos. As conversas que eu tive sobre o tema e as conclusões que cheguei junto com meus amigos foram uma delas.

De fato, as conversas começaram falando sobre a situação da PM. Começaram com o discurso de que “eu não consigo entender porque as pessoas precisam de uma polícia atrás delas para agir moral e eticamente como consideram certo”. Sim porque todos sabem que roubar e matar dentro da nossa sociedade é considerado sujo, imoral, repugnante, coisa de gente que não tem boa índole. E muitos discursos ficaram por aí mesmo: COMO NÓS PODEMOS FALAR DA CORRUPÇÃO POLÍTICA SE NÓS SOMOS CORRUPTOS E ETC.

Eu estava justamente comprando esse discurso, mas percebi, entre uma conversa e outra, o quanto esse discurso pode ser limitado e perigoso. Veja bem, eu não disse que discordo desse discurso, porque eu não discordo mesmo. A meu ver, nós estamos em períodos de crise moral e ética, em que existe um discurso sobre o que é certo e um estilo de vida que promove justamente o contrário. O discurso é respeitar o próximo, mas no meu trabalho eu sou incentivado a falar de cima pra baixo com quem não tem o meu cargo. O discurso é ajudar quem precisa, mas eu aprendi que se eu só posso dar pra alguém se não faltar nada pra mim. O discurso é de amar e aceitar as diferenças, mas se eu agir diferente do padrão do que uma mulher age eu vou ser vista como rebelde/descontrolada/histérica.

No meio de toda essa confusão, como você acha que as pessoas preferem agir? A maioria vai dançar conforme a música. Os peixes mortos vão nadar a favor da correnteza. É uma escolha que a maioria das pessoas faz sem nenhuma reflexão. Mas será que então chegamos em tudo o que o mundo precisa? Mais consciência? Será que se eu começar a agir diferente com o próximo eu vou contagiar as pessoas ao meu redor e vou mudar o mundo?

Vou dar a resposta preferida de qualquer psicólogo: DEPENDE.

Trabalhar a conscientização é uma ferramenta importantíssima. Fazer uma terapia, frequentar um grupo ou instituição de viés religioso, começar a praticar uma atividade física que uma mente e corpo (yoga, dança, artes marciais e na verdade quase todas que você puder pensar), começar a ler textos inspiradores, estabelecer uma prática meditativa, escrever, pintar, desenhar… Tudo isso vai te garantir, com toda certeza, melhor qualidade de vida e maior consciência sobre quem você é, além de ampliar sua visão sobre o mundo e sobre os seus atos, e vai te permitir, muitas vezes, mudar práticas que antes eram automáticas ou óbvias pra você.

E é lógico que tudo isso pode ser trabalhado dentro de uma proposta com viés político. Vocês já devem ter lido aí pela internet e ouvido muitos casos de crianças que desistem do crime porque começam a praticar um esporte, de pessoas que saem da depressão depois que começam a meditar, de pessoas que mudam o estilo de vida totalmente depois de entrar numa organização religiosa, pessoas que aumentam sua autoestima depois de começar a dançar ou de entrar numa aula de capoeira. Esse trabalho é o ideal para organizações com viés espiritual (igrejas, centros, círculos de mulheres…) ou para grupos que promovam debates e intervenções. Profissionais como os psicólogos e orientadores educacionais, por exemplo, podem trabalhar essas questões dentro das escolas, ONGs podem realizar projetos para lidar com questões variadas… São atitudes nobres, bem vindas, que somam e acrescentam aos que participam e a todo o coletivo.

Mas só isso não é o suficiente. E eu te digo o porquê.

Eu já estabeleci muitas dessas práticas (meditação, ginástica aeróbica, yoga, frequentar um grupo budista…) durante esses anos todos. Comecei a estudar psicologia e digo abertamente que a minha intenção é promover um trabalho com mulheres. Tenho um círculo de mulheres dentro da minha cidade. E tudo isso mudou completamente meu estilo de vida e meu modo de pensar sobre o mundo. Mas mesmo assim, eu ainda corro risco de ser estuprada se alguém achar que deve fazer isso comigo. Mesmo assim, eu continuo passando aperto pra saber hoje o que eu vou comer amanhã. Mesmo assim, se eu quiser um trabalho eu vou ter que manter uma “postura profissional” que provavelmente vai me fazer engolir muitos sapos e aceitar calada muito do que me for imposto.

Isso porque nenhum movimento pode acontecer somente de dentro pra fora, é preciso que também exista um movimento de fora pra dentro. Sendo mais clara, não adianta apenas tratar da dimensão moral ou ética, como se não existisse a dimensão política da vida. O que eu estou chamando agora de dimensão política não é necessariamente a melhor definição dessa palavra, mas é o que um coletivo feminista, um afiliado de um partido político ou um grevista vai focar: seu contexto social.

Voltando por exemplo para a questão da Polícia Militar, para os cidadãos que roubam e matam quando a polícia não está olhando, não adianta apenas pensar em “educar eticamente essas pessoas para que elas mudem sua percepção de si mesmas”. Dentro do nosso contexto social, somos forçados a acreditar que “se eu não tirar vantagem de alguém, alguém vai tirar vantagem de mim”, “eu tenho que ser melhor do que o fulano porque senão ele que vai ficar no meu lugar”, ou então “se ninguém estiver me olhando, não tem porque eu obedecer a lei, o importante é tirar vantagem da situação.”

Somos forçados a acreditar porque no mercado de trabalho realmente “só os mais fortes vão sobreviver”. Porque diante de um acidente no seu trabalho, a empresa pode te induzir a mentir para que você mantenha o seu emprego. Porque se eu não for o melhor no meu trabalho vão me tirar daqui quando tiver corte de funcionários. E eu sei que o pessoal da moral vai levantar várias bandeiras pra falar que “isso não é imposto, é uma escolha”. Mas será que existe escolha quando o que está em jogo é o que o seu filho vai ter pra comer? Será que é escolha quando eu até que poderia ser quem eu sou, mas aquela menina gostosona vai ser muito mais valorizada do que eu em qualquer situação (inclusive no trabalho)?

Pra muitas pessoas, isso tudo significa que ela vai ser contra a greve pra não perder o emprego dela. Significa que ela vai preferir obedecer as ordens do que tentar falar de suas novas ideias. Significa até que ela vai preferir seguir o padrão de vida “certinho”, mesmo que ela passe o restante todo de sua vida infeliz.

Além de se conscientizar de si mesma, você também precisa ter consciência de que sendo quem você é, dentro dos grupos em que você se enquadra, a sociedade vai impor exatamente o jeito que ela quer que você viva. E que se você quiser dizer não, se você quiser melhores condições de trabalho, se você quiser um estilo de vida melhor, se você quiser inclusive ter como reivindicar seus direitos, você vai precisar LUTAR por isso.

Afinal de contas, é certo você dizer que “uma mulher que se reconecta consigo mesma é capaz de mudar o seu próprio mundo” é coerente dentro de um círculo de mulheres, mas é totalmente inconsistente quando o tema é “cultura de estupro”. Deu pra entender a diferença?

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A verdade é que cada um vai acabar focando em um desses aspectos. O pessoal da espiritualidade provavelmente vai focar em trabalhar a moral e a ética, e os militantes vão se focar em trabalhar a política e o contexto social. O que nenhum de nós pode esquecer é que nenhuma verdade ou afirmação é suficiente para definir ou dar todas as respostas de que o mundo precisa. Não podemos perder a perspectiva de que escolhemos lidar com uma dimensão humana, mas existem muitas outras. E principalmente, não podemos esquecer que somos atravessados por todas essas dimensões, e que mexer em uma parte da teia que nos conecta enquanto seres sociais mexe com o todo.

 

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

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