Essa nova geração

 

Eu geralmente não sou o tipo de pessoa que chora com facilidade e juro que posso contar nos dedos da mão as vezes em que fui às lágrimas assistindo um vídeo ou um filme, mas hoje o discurso de uma jovem estudante consegui esse feito. Provavelmente a essa altura você já deve ter esbarrado com o vídeo da  Ana Júlia Ribeiro, uma estudante de dezesseis anos que dá um show ao discursar no plenário da Alep. Se você ainda não viu, aconselho você a dedicar dez minutos do seu dia para ouvir o que essa jovem incrível tem a dizer :

Eu prometi que evitaria ao máximo falar sobre política no blog para não ofender a opinião de muitas leitoras, mas acho que tem horas em que não podemos ignorar o que está acontecendo, principalmente nessa fase tão caótica em que vivemos atualmente. Também acredito que não podemos fechar os olhos quando esses acontecimentos afetam um dos fatores mais importantes para o futuro de uma nação: a educação.

Eu não vou ficar aqui explicando nesse texto o que é a Lei da Mordaça ou a PEC 241 por dois motivos: primeiro, porque acho todo cidadão que já está apto a votar tem que ter no mínimo a obrigação de saber o que está acontecendo no cenário político brasileiro. Eu sei que essa é um opinião radical, mas para as coisas mudarem e melhorarem não adianta viver em um mundo colorido onde você só fica lendo besteiras no Facebook ou passando todas as suas horas vagas no Netflix. Segundo, porque vai desviar o foco do que quero realmente pautar aqui, que é a conscientização política dessa nova geração de jovens e principalmente das meninas.

As pessoas geralmente atribuem a palavra alienação para os adolescentes e por muito tempo fui parte desse time. Talvez porque antes eu não tivesse tanto contato com essa faixa etária e também porque a minha geração, quando tinha essa idade, não passou por um período político tão conturbado quanto o que eles estão vivendo agora. Também frequentei escolas particulares e o ato mais rebelde que eu fiz foi me juntar a uma panelinha para reclamar sobre o calendário de provas na coordenação. Só passei a me interessar mais pelo assunto na época da faculdade, em meados de 2013. A única coisa que sempre foi um diferencial na minha vida foi ser feminista desde novinha, mas sem assumir ainda rótulos ou entender o que o movimento era. Geralmente eu também era uma voz que gritava sozinha e que quase sempre era censurada pelas outras quando batia de frente com algum machista.

Hoje eu admiro esses jovens não somente porque que ocupam escolas e debatem sobre política em plenários com uma maestria digna de deixar muito deputado com queixo caído, mas também por não terem medo de assumir uma postura contestadora quando se trata de muitos outros temas que são considerados tabus por gerações mais velhas- e nessa eu incluo até a minha. Recentemente tive a oportunidade de dar aula em um curso profissionalizante cuja faixa etária mínima era de 14 anos e geralmente mais de um terço das turmas eram formadas por alunas era menores de idade. Como detestava ter que entrar em contato com elas com via Whatsapp, acabei fazendo um perfil no Facebook destinado a atender todas as dúvidas que elas tinham.Como uma coisa leva a outra, podia ver o conteúdo que muitas dessas meninas publicavam na timeline e tive uma agradável surpresa.

No lugar de uma enxurrada de selfies com poses ensaiadas e memes com piadas sem graça, me deparei várias vezes com posts sobre política e principalmente sobre feminismo. Comecei a notar que essas garotas tão novinhas já não tem tanto medo de tocar em feridas, de assumir rótulos e que na maioria das vezes tem respostas afiadas para dar, procurando também dar apoio umas às outras ao invés de tentar calar ou podar. Percebi que até as heroínas dos filmes e livros que elas consomem são reflexo dessa mudança de pensamento. Elas preferem muito mais ter como modelo uma protagonista de uma revolução do que aquela garota sem graça que se apaixona por um rapaz rico e bonitão. Com elas eu pude derrubar um preconceito e perceber que estava vendo surgir uma geração que não tem medo de comprar briga. Confesso que também passei a sentir um misto de inveja com uma pontada de orgulho. Quisera eu poder ter passado essa fase tão difícil com uma mentalidade assim: tão determinada e tão indômita.

Texto por Laís Sauerbronn

562781_479354222076907_2097871124_nLaís é formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Resolveu fazer um curso de Jornalismo Cultural e criar um blog onde pudesse compartilhar textos de outras mulheres tão diferentes e opinativas quanto ela. Nerd de carteirinha, amante de livros e filmes. Nasceu ligada nos 220 volts e é uma implicante nata, sempre pronta para dar sua opinião, por mais polêmica que ela seja.

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