Evaporar

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Da primeira vez que Renata apanhou do marido, o tapa não doeu tanto na carne. O corpo já estava calejado pela vida, pelo peso dos filhos, dos dois empregos, das faxinas. A dor foi dentro, ao ver os olhos enfurecidos do homem que prometera amá-la sem ressalvas. Robson, um cara tranquilo, carinhoso, dedicado. Foi um choque.

Manteve o episódio em segredo, principalmente depois que Robson passou a ser carinhoso como nunca. Era como se naquele dia ele estivesse possuído por algum espírito maligno. Renata rezou, e por dois anos tentou passar uma borracha em sua alma, apagando a marca dos dedos do marido. 

Da segunda vez, ela tentou se esquivar, mas ele atirou uma panela de pressão na cabeça dela. Foi por causa do vestido de Renata, o que Robson tanto gostava quando começaram a namorar. Ela resolveu vesti-lo para surpreender o marido com um jantar à luz de velas. Mas Robson achou que ela estava sendo ousada demais, mulher minha não usa esse tipo de roupa. Renata pensou em argumentar, mas sentia-se emudecida, as palavras atiradas longe junto com o sangue que manchava o piso da cozinha.

Fizeram as pazes no dia seguinte, Robson todo amores, ela toda perdão. Preciso tentar salvar meu casamento, pensava enquanto uma sombra sinistra pairava sobre a família, um presságio de que aquilo poderia voltar a acontecer a qualquer momento.

Renata nunca contou a ninguém, mas os filhos desconfiavam dos hematomas cada vez mais frequentes no corpo da mãe. Eles, também, não queriam aceitar que o pai era um monstro, e preferiram desviar os olhares. Os pais se amavam, no fim das contas, e nunca iriam se separar. Deve ser coisa de casal, deixa pra lá, diziam uns para os outros.

Mais cinco anos se passaram, dessa vez sem calmaria, cinco anos de tormentas, objetos quebrados, você não presta sua vadia, Renata jogada em algum canto da casa, coberta de sangue. Ainda bem que meus filhos não estão em casa, pensava. Era como se Robson aproveitasse a ausência deles para descontar no corpo de Renata todo o ódio que sentia pelo mundo ou por si mesmo. Renata encarava os olhos do marido, agora vazios, e sentia pena, uma piedade tão imensa que a fazia permanecer ali, mártir, em nome de um amor já inexistente.

Da centésima vez que Renata apanhou do marido, já não sentiu mais dor. Foi uma espécie de libertação quando viu o cabo de vassoura vindo em sua direção. Robson voltara do trabalho mais cedo e Renata estava saindo do banho. Ela mal conseguiu escutar o que ele dizia, aos berros. Não havia mais ninguém em casa. Quando terminou de descarregar sua fúria, Robson desapareceu.

Aquele foi o último banho de Renata. Pelo menos vou embora limpa, pensou, enquanto a vida, junto da água, evaporava de seu corpo.

 

Texto por Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga

 

Fonte da imagem : Unsplash

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