Idealizações como problemas

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Eu evito criar expectativas sobre como as pessoas e a sociedade deveriam ser. Evito porque ninguém, absolutamente ninguém, vai viver pra corresponder aos meus ideais. Percebo a tendência cada vez mais normalizada de eu classificar pessoas pelo tanto que elas se parecem ou não com o meu reflexo no espelho, e isso me assusta.

É normal ter dificuldade pra conviver com a diferença. É aceitável ficar perplexa quando uma pessoa profere um discurso de ódio, como se dissesse algo normal, depois que eu já desnaturalizei tudo isso. O problema começa quando a pessoa é tão boa quando o seu discurso soa aos meus ouvidos. E eu aprecio ouvir a medida que as palavras dela estão mais assemelhadas ao que eu diria.

Se alguém fez uma coisa que eu discordo, portanto, preciso dar um lacre, fazer essa pessoa se calar, mostrar que a razão pertence ao meu lado, a quem é como eu sou. Também é imprescindível repudiar, menosprezar, parar de falar com esse alguém, afinal, afirmar quem eu sou é mais importante do que o encontro genuíno.

O contato com aquilo que é diferente, que interroga o meu estilo de vida e a minha forma de perceber a realidade ameaça meu ego, põe em evidência que essa não é a única vida possível, não é a única forma de ser feliz, e talvez não seja nem a melhor de todas as possibilidades de existência.

Isso é vendido como discurso de autenticidade. Pra mim, como futura gestalt-terapeuta, ser autêntico é ser livre para escolher suas ações de forma consciente. Não vejo consciência alguma nesse tipo de atitude.

É mais algo sobre o que espero de alguém que é do meu nicho, como uma pessoa que está no meu lugar deveria se comportar. Se eu sou uma pessoa integrante de tal grupo ou seguidora de tal ideologia e alguém diz uma coisa, age de uma determinada forma, é assim que eu TENHO QUE agir. É assim que você retorna a segurança de um protocolo para saber quem você deve ser no mundo. É assim que se troca seis por meia dúzia.

Lamento muito por cada pessoa que criou nomenclaturas, definiu a posição que eu ocuparia e criou expectativas sobre o que eu faria diante desses papeis. Lamento porque se essas pessoas não se decepcionaram comigo, ainda irão. É por isso que, a cada frustração, avalio que expectativas estão em jogo para que tal emoção se manifeste. Esse também é o motivo de eu olhar para os meus comportamentos e ideais cristalizados – esses que naturalizamos e passamos a reproduzir sem reflexão – reconhecê-los e evitar projetá-los nos outros e em mim mesma.

Eu realmente não vou, por exemplo, mudar a forma de tratar uma pessoa se ela tem um ponto de vista diferente do meu. Por mais que esse ponto de vista seja limitado, seja por vezes carregado de opressão. Eu reconheço a minha própria capacidade de reproduzir sem pensar, e reconheço o meu desejo por segurança, que por vezes é capaz de abusar do outro ou de me submeter para garantir um conforto. Isso existe em todos nós.

As pessoas possuem uma trajetória de vida e estão inseridas num espaço vital complexo. Se eu considero que alguém possui uma atitude inadequada, sou livre para decidir que postura quero tomar a respeito. Não é sobre o que ‘eu devia’, é sobre o que ‘eu desejo’. Muitas coisas do meu próprio espaço vital vão contextualizar a minha decisão.

E o diálogo, uma ferramenta subestimada, continua sendo uma possibilidade. Quando eu não acho que sou um professor da razão, alguém que precisa ensinar algo que o outro ignorante ainda desconhece, e me coloco na posição da humildade de quem não sabe tudo e sempre tem algo novo a aprender, eu me abro para trocas enriquecedoras. Muitas vezes o outro também se abre, ao perceber que fala com alguém que o vê como semelhante.

Eu não tenho o menor interesse em manter um círculo de amizades embasado no quanto uma pessoa reafirma as minhas escolhas ou mesmo aprova o que eu fiz. Muito menos em sentar num trono e julgar a posição de cada um no critério das minhas idealizações.

Minha prioridade é a abertura para o contato sincero, alguém que realmente esteja aberto para uma troca harmônica, saudável e que enriqueça a minha vida. Minha prioridade é um viver autêntico o bastante para permitir os encontros e as e mudanças que eu quiser realizar. Definir e classificar pessoas é um jeito fácil e confortável de viver, mas não me torna mais livre. Por isso, não foi a maneira que eu escolhi.

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

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