Mulheres em mim

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Numa tarde preguiçosa em casa, assistindo Jovens Titãs em Ação, parei em um episódio onde cada personagem é dividido em outros cinco, e cada parte representa um aspecto da sua personalidade. Não consegui evitar a pergunta: e se eu fosse dividida em cinco partes, quais “eus” se formariam? Uma estudiosa, cercada de livros e cadernos ao redor. Outra engraçada, que passaria o dia distribuindo memes. Talvez uma irritada, uma pervertida e uma comilona completassem o quadro. Mas eu ainda consigo pensar em outras centenas. Se definir é sempre uma tarefa difícil.

Há alguns anos, tive uma série de rompimentos complicados: fim de um relacionamento tenso, perdi amigos, e o pior de tudo, rompi com muitas das minhas crenças e hábitos. O lado bom é que foi como se eu tivesse uma folha em branco, onde eu podia escrever sobre a minha vida o que eu quisesse. O ruim é que ter muitas opções me deixou sem saber por onde começar. Fiz muitos caminhos de passos tortos, do jeitinho que eu sabia andar.

Nessa jornada de autodescoberta, eu me vi como um território, disputado por muitas mulheres. Tinha uma meio acadêmica, que podia passar o dia estudando e entrando em debates. Essa vivia implicando com uma bruxa, que menosprezava suas tentativas de entender o mundo por sua mente racional. Tinha uma meio artista, metida a escritora, e que se emocionava demais: chorava só com uma música e morria de rir de um desenho animado. Essa era muito amiga da romântica, que sempre via o lado bonito da vida, e esperava beijos e carícias com ansiedade. A nervosa achava tudo aquilo uma perda de tempo e queria mandar todo mundo a merda. Só não surtava porque tinha sua amiga ginasta, mexendo o corpo pra descarregar a tensão. A preguiçosa queria distância delas, e podia passar o dia deitada na cama, para o pavor da dedicada, que acordava todos os dias pensando em realizar suas metas. A engraçada era popular entre quase todas, porque sua descontração as ajudava a baixar um pouco a guarda pra rir de si mesmas. Só a juíza não gostava dela, e se dedicava a lembrar todas de quem elas deveriam ser. Ninguém se dava bem com a juíza.

Todas essas e muitas outras me tumultuavam, às vezes se esmurrando, às vezes se abraçando e na maior parte do tempo tentando se manifestar. Fiquei confusa, não sabia a quem dar razão, quem eu devia deixar falar. E a coisa só se resolveu quando eu desisti de negar a existência de qualquer uma delas, tomei as rédeas e aprendi a fazer com que todas dialogassem entre si. Algumas teimaram mais, outras aceitaram de prontidão. Mas só quando uma reconheceu a importância da outra, ou pelo menos aprendeu a conviver com os seus opostos, é que meus passos puderam se endireitar. E eu só fui feliz quando aprendi a reconhecer, honrar e admirar todas as mulheres que eu sou.

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

 

Autoria da Imagem: desconhecida

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