Nem bonecas, nem de papel

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O valor que a sociedade atribui à mulher costuma estar intimamente ligado ao seu corpo. Um receptáculo imaculado e puro, uma obra de arte para ser possuída e ostentada. Sua castidade é uma bandeira, um troféu que os homens desejam levar para casa.

Afinal de contas, a mulher deve ser bela, enquadrar-se nos padrões de comportamento, ter uma forma agradável, um porte elegante. Ser polida e lustrosa e imóvel como um troféu. Deve preservar sua castidade a todo custo, entregando-a apenas a alguém que mereça, que conquiste arduamente este “prêmio”, derrotando gigantes, matando dragões, bruxas e quebrando maldições. Como um príncipe encantado, que só existe como um vulto distante.

E, se ela não oferece de bom grado este tesouro, este mistério, então um homem pode roubá-lo para si. Porque nada mais naquele corpo vazio importa quando levam dele o que há de mais sagrado.

Que coisa mais horrível de se impor a alguém.

Quando uma mulher é violentada, não se fala sobre o corpo marcado, sobre as feridas e sobre a culpa de ter sido invadida, mas sim sobre o valor que se perdeu. Como se fosse um objeto usado e sem viço, uma flor murcha, um cristal que perdeu o brilho.

Que maneira mais desumana de tratar o sofrimento alheio.

——

A poetisa Sierra de Mulder, que é uma das fundadoras da Button Poetry, a maior distribuidora de poesia falada do mundo, toma posse de seu corpo e afirma: não fui roubada. A dor do abuso não tem a ver com o roubo, mas sim com a violência. O choro é resultado da lembrança que fica, e não do que foi levado. O que dói é o que fica, e não o que foi roubado.

Porque o corpo e o valor da mulher não são objetos, não são quantificáveis. Não somos feitas de papel, mas de carne, osso e sentimento.

Confira abaixo um dos poderosos poemas desta incrível autora, “Paper Dolls” (Bonecas de Papel):

Somos ensinadas, desde o momento em que saímos de nosso berçário cor-de-rosa, que somos bonequinhas dobráveis de papel

leves de segurar, mais fáceis ainda de amassar

que, como mulheres, nosso valor está secretamente embrulhado em calcinhas de algodão e renda

nossa fragilidade protegida por sprays de pimenta e gás lacrimogênio

Eles dizem uma a cada dez, uma a cada seis, uma a cada três mulheres serão estupradas ou abusadas sexualmente durante a vida

e eu sou uma de três filhas

Agora, imaginem que cada vítima é uma acrobata,

sua sanidade é como andar na corda-bamba

nossa resposta é a infalível rede de segurança

nós nunca imaginamos que ela terá que caminhar por aquela corda-bamba

Você não foi simplesmente violada, dizemos, você é um museu vazio, um monumento estripado de algo que costumava ser tão valioso

E, com a melhor das intenções, nós dizemos que ela deve se apoderar desse valor

Colocar um preço em seu estupro e ser dona dele

Mas, não se empodere demais

Não seja tão forte, ou chamaremos isso de negação

Volte, quando estiver pronta para desmoronar, como se seus ossos fossem feitos de giz

Você só pode sorrir com graça ou chorar com beleza

Por isso, chore com beleza

Nós a apanharemos

Chamamos isso de roubo, como se ele pudesse puxar suas costelas como cordas de violoncelo, embolsar seus seios, furtar o que faz o seu coração pulsar, pregando suas asas na parede dele

Haverá dias em que você se sentirá suja

Durante algumas semanas, você se lembrará como é difícil respirar em público,

Como se as batidas do seu coração escalassem o sótão da sua garganta para cometer suicídio no chão.

Mas, saiba disso: a pessoa que fez isso com você está quebrada, e não você

A pessoa que fez isso com você está por aí, engasgada com o vidro no peito dela, que é um para-brisa, seu coração pulsante um taco de baseball, dizendo “Arrependa-se, arrependa-se”.

Não roubaram nada de você.

Seu corpo não é um objeto e não há nada dentro de você que detenha o seu valor.

Nenhum medalhão que possa ser visto ou tocado, ou fodido de dentro de sua barriga, abandonado sobre o concreto

E eu sei que é difícil se sentir perfeita, quando não se sabe diferenciar um pomo de Adão de um punho, porque um homem-lixo escolheu você para brincar de Jardim do Éden

Mas eu não vou ver você desmoronar

Livro: https://buttonpoetry.com/product/we-slept-here/

Site oficial da autora: http://www.sierrademulder.com/about/

Créditos da imagem: Streamline – Filmstruck Blog

 

*Tradução livre de Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga

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