Nos deixem em paz

Machismo não é piada

 

Ser mulher é minha ótica. É como eu vejo o mundo. É quem eu sou e o que eu sou. São as mulheres que me inspiram, são elas que me influenciam. Eu sou composta por muitas mulheres.

É por isso que os feminicídios mexem tanto com meus sentidos. É por isso que o assédio é mais dolorido quando eu escuto.

É por isso que a vulnerabilidade da mulher é tão notável diante dos meus olhos.

Eu vejo o mundo dentro do corpo de uma mulher. E isso não tem como mudar.

Quando um grupo de brasileiros, representando minha nacionalidade, sai do meu país (que apesar dos pesares, tenho tanto orgulho) para atacar agressivamente mulheres em outro país, isso me corrói por dentro.

Quando eu sei que do lado de cá, ainda, estamos exportando o machismo mais cruel e mais nojento do mundo, eu morro de vergonha. Fico ruborizada, fico desgostosa.

Ser mulher e brasileira, nesse momento, me deixam com um ambiguidade sentimental. Eu amo o Brasil, mas odeio os nossos homens!

Não precisamos desenhar com detalhes os fatos, ta aí pra todo mundo ler: homens, brasileiros, idade suficiente para compreender seus atos, com condições financeiras para sair de um país em crise e passar tempos na Rússia, saem daqui e gravam um vídeo humilhando uma mulher, que estava sendo cordial e gentil. Só por ser ela uma mulher. Só por ela estar vulnerável. Só por ela não dizer a mesma língua que a deles. Só por ela estar ali bebendo. Ou por estar ali exercendo sua liberdade de ser um ser humano qualquer curtindo uma Copa do Mundo em seu país.

Eu não consigo compreender o que passa na cabeça de alguém que tem uma ideia dessa. Eles tentaram justificar. Eles disseram que eram muito humoristas, que estavam muito bêbados. Eles pediram que parássemos de apontar os seus defeitos. Mostrassem que eram “homens de família”. Como se cada justificativa importasse ou fosse um álibi.

Em um hora dessas, talvez fosse bom mesmo não se justificar. Permanecer quieto e reconhecer que a atitude foi mais do que infeliz, foi asquerosa.

Mas eles se justificaram e óbvio que de nada adiantou, pois não temos interesses se eles estão cumprindo corretamente com todas as obrigações sociais que são básicas e essenciais para um convívio suportável. Não interessa se eles nunca tomaram uma multa. Se fazem o mínimo para criar com dignidade os filhos. Se eles são bons pais, maridos ou filhos. Se vão a academia três vezes por semana e têm uma dieta balanceada.

Tudo isso pouco importa.

O que importa para nós, mulheres, é que vocês não interrompam nossa vida com suas bobagens, com suas brincadeiras machistas. Importa para nós que suas obrigações de não nos humilhar, de não nos assediar, de não nos invadir seja uma realidade.

Nós não queremos saber os seus antecedentes criminais, sociais, econômicos. Nós queremos liberdade para estar em qualquer lugar sem ter um vida tão vulnerável. Que seja no bar ou na igreja, na Copa do Mundo ou na escola, na Rússia ou no Brasil, nós desejamos ser repeitadas. Não é tão difícil assim. Não é pedir muito. É só exigir o que é nosso por direito.

É essa a minha ótica. É aqui que eu moro com os meus pensamentos: por favor, nos deixem em paz.

 

Texto por Gabriela Miranda

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Gabriela é advogada, formada no curso de Direito pela Universidade Federal Fluminense e mora em uma sossegada cidade do interior de São Paulo, a bucólica e conhecida Pindamonhangaba. Esquerdopata.Canceriana em estado de poesia. Fanática por café, tem o feminismo no sangue.

 

 

 

 

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