Nunca fiz um aborto e jamais faria, mas …

 

Nunca fiz um aborto e jamais faria, mas sou totalmente a favor da legalização do aborto. O fato de eu não querer isso para mim não me dá o direito de vetar essa possibilidade para outra mulher ou até criminalizá-la por esse ato. Já fui contra, mas hoje em dia não sou mais. Não sou louca e nem estou entrando em contradição, apenas decidi ser menos cega e hipócrita. Não mudei minha postura pelo feminismo, pois já tinha ela antes mesmo de ser militante do movimento. Mudei porque decidi ter um pouco mais de empatia por aquela que decide não ser mãe naquele momento.

Decidi apoiar a legalização porque não sou ignorante ao ponto de colocar toda a culpa de uma gravidez indesejada em cima de outra mulher, pois métodos anticoncepcionais falham e nem todo mundo recebe as informações corretas sobre como evitar ter uma gravidez não planejada. Sim, amigo/amiga de classe média, nem todo mundo recebeu as mesmas informações que você e muitas vezes nunca ouviu falar sobre planejamento familiar. Nem todo mundo tem internet em casa, aulas de educação sexual na escola ou condição financeira de comprar um pacote de camisinhas na farmácia. Nem todo mundo tem como pegar contraceptivos no postinho de saúde ou marcar uma consulta com o ginecologista. E o mais importante: nem todo mundo tem condição financeira de arcar com as despesas pesadas que vem junto com um filho.

Também não fui criada em uma bolha de vidro e já conheci várias pessoas que passaram por esse processo – inclusive dentro da minha própria família. Várias delas se arrependeram, outras não. A maioria acabou se tornando mãe depois – e algumas até grandes avós. Dessas mulheres, a que menos se arrependia foi uma das responsáveis por me fazer mudar de postura com relação à legalização. Ela não era militante e nem quis me doutrinar, apenas contou sua história da forma mais natural possível. Sem rodeios, sem medos. Ela já era mãe e voltou a ser novamente, mesmo depois do aborto. E foi uma das melhores pessoas que eu tive o prazer de conhecer na minha vida, portanto, não seria um ato que a transformaria em um monstro ou em uma assassina. Eu sabia que ela era uma pessoa tão normal quanto eu, então não cabia a mim ser maniqueísta e julgá-la pela sua escolha.

Outra questão mais delicada foi que eu não quis colocar as minhas questões religiosas como uma realidade absoluta. Religião é algo muito íntimo para cada um e eu acredito que toda crença deva ser respeitada, porém ela não deve sair da sua esfera particular. O que você pensa sobre Deus, sobre a vida e a alma é um conceito seu e, por mais que você tenha fé neles, não os transforme em um a verdade universal que deve ser aplicada a todos. Se você acredita que a alma está presente desde o momento da sua concepção, então não faça um aborto. Mas não tire o direito de outra pessoa fazer, caso essa não seja a crença dela.  Aceitar que outra pessoa possa ter a liberdade para fazer algo que seja diferente da sua doutrina não vai diminuir a sua fé, vai apenas te tornar uma pessoa mais tolerante.

E o ponto mais importante de todos: muitas mulheres morrem nas mãos de médicos açougueiros, principalmente as que não tem recursos financeiros para arcar com procedimentos realizados em clínicas clandestinas de classe média alta. Isso sem falar daquelas que não tem nem condições de pagar um médico meia boca e resolvem então apelar para práticas perigosas, como remédios, chás abortivos ou até ações mais desesperadas, como ficar se jogando de escadas. Não, infelizmente não estou inventando essa parte, pois essa é uma prática muito comum, principalmente entre adolescente.

Eu pessoalmente não faria nenhuma dessas loucuras, mas procuro ter um pouco de empatia e me colocar no lugar de uma mulher para entender o quão desesperada ela está ao ponto de tomar uma decisão tão radical. Tento enxergar que nem todo mundo vive na mesma realidade que a minha, onde eu teria condições e apoio para criar um filho, mesmo que ele não fosse planejado. Eu não ficaria tranquila com uma gravidez inesperada, mas sei que tenho como ter todo o suporte para dar continuidade à ela, então, quando o tema do aborto surge, eu paro por um minuto e penso: e quem não tem? Como fica a situação dessa mulher e criança?

Como eu disse no começo desse post, talvez eu pareça contraditória na visão de quem tem uma postura radical e inflexível, mas se perco meu tempo escrevendo essas linhas é porque não quero ter a arrogância de achar que posso ser juíza e dona do destino de alguém.Também tenho noção de que não sou santa por escolher não abortar e que isso não vai fazer de mim uma mãe melhor do que uma mulher que já abortou. E se defendo essa posição, é porque aprendi que a liberdade que quero para mim é a mesma que desejo para todas, mesmo para aquelas que pensam e que fazem escolhas diferentes das minhas.

Texto por Laís Sauerbronn

562781_479354222076907_2097871124_nLaís é formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Resolveu fazer um curso de Jornalismo Cultural e criar um blog onde pudesse compartilhar textos de outras mulheres tão diferentes e opinativas quanto ela. Nerd de carteirinha, amante de livros e filmes. Nasceu ligada nos 220 volts e é uma implicante nata, sempre pronta para dar sua opinião, por mais polêmica que ela seja.

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