O corpo gordo precisa ser visto

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Ao longo dessa semana, uma pergunta sem resposta me assombrou noite e dia:

Por que não encontramos fotos belas e bem produzidas de pessoas gordas em bancos de imagens (principalmente de mulheres)?

Estava trabalhando na nova edição do meu zine Mil Palavras, cujo tema será “corpo”. A proposta é suscitar reflexões sobre nossa relação com o corpo em que vivemos, sobre visibilidade, amor próprio, enfim, essas questões que nos incomodam tanto e que têm fortes impactos na vida das mulheres.

Como sou uma mulher gorda, quis retratar isso nas artes do zine, com colagens digitais de textos sobre silhuetas de corpos de vários tamanhos. No meio do processo de criação, decidi que iria apenas usar silhuetas e perfis de mulheres gordas – afinal, já temos bastante representação de corpos magros na mídia e nas artes, em geral. Nada mais justo do que usar a minha arte para dar espaço aos corpos semelhantes aos meus.

Para minha surpresa, tive muita, mas muita dificuldade de encontrar fotos bonitas e artísticas de mulheres gordas, que não fossem caricatas ou ofensivas (aquelas fotos do tipo “antes e depois”).  Uma simples busca no Google foi o bastante para notar a gritante diferença entre os termos “mulher magra” e “mulher gorda”.  A magreza quase sempre está associada à beleza e à saúde, enquanto que a gordura está ligada ao desleixo, à falta de controle e à doença.

Voltei a analisar os programas de televisão, filmes, séries, enfim, as mídias que divulgam imagens, e novamente me choquei com o fato de que a presença de pessoas gordas é quase zero. Representatividade zero. Não é à toa que a nossa autoimagem seja tão prejudicada e muitas vezes se resuma ao ódio pelo próprio corpo.

Passei dias e dias questionando toda a minha trajetória de aceitação, me enxergando como um corpo bizarro e disforme – o que, ironicamente, me rendeu ainda mais material para continuar compondo a arte e os textos do zine.

E foi ótimo conseguir entrar em contato com a revolta, a dor, a tristeza, esses catalisadores da criação. Eu estava quase desistindo de escrever sobre esse tema, abandonando a proposta inicial de fazer arte e questionamentos sobre o corpo – até porque me parecia difícil lançar um olhar positivo sobre essa questão em meio à crise que se instaurou em mim. Mesmo com toda a caminhada no feminismo, mesmo tendo muito contato com conteúdo body positive, eu me senti acuada, perdida e triste pela falta de visibilidade, pelo julgamento tão negativo que a sociedade ainda faz do corpo gordo.

Mas, depois de um breve passeio pelo reino da autopiedade, resolvi sacodir a poeira e seguir em frente. Afinal, o que é a arte, se não uma poderosa ferramenta, capaz de transformar nossa dor em beleza?

Não é porque sou gorda que sou todas essas coisas negativas que a sociedade fala sobre mim. Pelo contrário: sei bem que tudo isso não passa de uma forma de nos manter sob controle. E eu me recuso a ser controlada por um pensamento tão mesquinho, que afirma que apenas um único tipo de corpo é possível, capaz, belo e digno de ser valorizado.

O corpo gordo precisa ser visto, apreciado e amado. É apenas uma das inúmeras formas possíveis de se ter um corpo, e, como todos os outros, merece seu espaço. Todos os corpos merecem respeito, apreço e carinho.

Além do mais, acho que eu estava procurando no lugar errado, já que a minha mente está repleta de referências de mulheres gordas maravilhosas.

Lembrei-me de todas as blogueiras, atrizes e personalidades que conheço: Rebel Wilson, Melissa McCarthy, Gabi Fresh, Juliana Romano, Octavia Spencer, Flávia Durante, Tess Holliday, Mariana Xavier, Luiza Junqueira, Fluvia Lacerda… Todas elas tão incríveis, talentosas, mulheres fortes e que me representam, cada uma à sua maneira. Corri novamente para o Google e fiz um estoque de fotos dessas mulheres, que serão as musas inspiradoras do meu próximo zine – e do resto dos meus dias, com certeza.

Esse processo todo me ajudou a perceber como ainda estamos longe de ter a visibilidade ideal nos meios de comunicação, e como ainda precisamos passar a ocupar ainda mais os espaços de destaque na sociedade. Hoje, a vontade de desistir foi substituída por uma força ainda maior de seguir em frente, vivendo feliz no meu corpo gordo, desfrutando de tudo o que ele me proporciona.

Colocando meu corpo no mundo, sendo vista e percebida, sem me esconder, sou eu mesma a visibilidade que tanto busco. Eu sou a representação que espero ver estampada na mídia.

 

Texto por Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga

 

Fonte da imagem : Unsplash

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