O diálogo da militância dentro e fora de seu contexto

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Sabe quando você tá com suas amigas feministas no bar, olha ao redor e de repente chega um grupo de rapazes héteros e de comportamento padrão? Você acha isso desagradável? Você não diz nada, mas gostaria que eles saíssem dali? É como se aquela presença fosse visualmente opressiva e desconfortável, e você quisesse ficar longe? Hoje, este texto é sobre empatia e tolerância com a diferença.

“Mas como assim? Você vem falar pra mim, feminista, desconstruída, apoiadora dos movimentos de minoria, que posto todo dia algo em favor das minhas causas, ando com amigos incríveis e totalmente militantes, que eu não estou sendo tolerante?”

Ficar entre iguais, tão desconstruídos quanto nós, com o mesmo tipo de pensamento e defesa, é reflexo de uma postura naturalizada de intolerância com a diferença. Não, eu não estou te pedindo para ir fazer amizade com os machistas e racistas que você conhece, mas estou te dizendo que MUITOS daqueles que reproduzem esse pensamento e essa forma de agir no mundo acham que isso é o natural, o correto e o que as pessoas de bem fazem, pois todo o restante é desvio e ameaça a mim ou a minha família. E talvez a sua postura agressiva não facilite o processo de aproximação dessas pessoas a outras formas de raciocínio.

Algumas pessoas podem estar abertas para ouvir o diferente, mas nunca tiveram acesso à essa informação. Você já parou pra pensar, por exemplo, que boa parte do Brasil não possui acesso à internet? Na verdade, já pensou que a sua família que reproduz piadas preconceituosas no jantar não teve as mesmas discussões, vivências e conhecimentos que você teve nos seus coletivos, na faculdade e redes sociais? Você não pode exigir o que te parece óbvio de quem que não teve acesso ao mesmo conteúdo que o seu, e nem pode cobrar rapidez e agilidade num processo de desconstrução, porque o processo de se refazer não é rápido. O seu também não foi e ainda não acabou.

Mais uma vez, não estou pedindo submissão. Você não precisa ficar quieto, ou ignorar o que as pessoas estão falando ou fazendo se elas estão sendo opressoras de alguma forma. Só precisa pensar em COMO se posicionar. A primeira coisa em que você deve pensar é de que lugar a sua fala vem, se é de um lugar de alguém que deseja melhorar a vida e ampliar a compreensão da realidade de quem te ouve, ou de alguém que deseja ter razão e vencer uma discussão. Sem querer ser puritana e muito menos dizer que você não deve sentir raiva – eu mesma não sou definitivamente o melhor exemplo de autocontrole e de falas gentis – mas, pense que todos os movimentos que defende não são só sobre você e seu desejo, mas sobre um grupo de pessoas que precisam ser acolhidas, respeitadas, amadas e reconhecidas enquanto existência. A prioridade numa situação dessas é ajudá-las a darem mais um passo na direção da sua causa. Isso é infinitamente mais importante do que seu desejo por estar certa ou por se sentir justiçada e reconhecida (por mais que ele seja legítimo).

Existem três filtros rápidos que você pode usar antes de se colocar numa discussão para saber se está conduzindo de forma harmônica e comprometida com a sua causa:

  • Filtro da contribuição: Em que essa fala contribui para que o outro repense seu comportamento e sua forma de se posicionar no mundo? Em que essa fala acrescenta ao outro que está me ouvindo?
  • Filtro do exemplo: Que exemplo essa fala está dando a esse outro que me vê? As minhas palavras, a minha entonação e minha postura diante dessa pessoa estão dando uma mensagem clara da coerência e da autenticidade do que estou defendendo?
  • Filtro da projeção: O que eu estou criticando de algum modo é algo que me pertence? Isso que estou observando diz mais sobre o outro ou diz mais sobre mim mesmo?

É claro que, nos momentos emergentes, no calor das discussões, pode se tornar difícil pensar em todos esses pontos, mas aquele que se propor a auto reflexão pode trazer muitos benefícios e inclusive questionamentos que o permitam ampliar sua visão de mundo. Existe um peso de defender uma causa que é se tornar um espelho dela para o restante do mundo. E aí, muitas pessoas sentem que não podem errar, começam então a vigiar seus iguais para que eles também não errem e não manchem a imagem de uma luta que consideram de suma importância.

O grande problema disso é: se sentir cobrado da mesma forma que aqueles que conhecem a militância com profundidade, mesmo quando você acabou de chegar. Nesse momento, só dá tempo de decorar os termos e reproduzir as falas daqueles que te cercam. Não dá pra se apropriar da causa, questionar os termos, os bordões, as práticas e experiências vivenciadas.

Ora, não se engane, você será processo por toda a sua vida, sempre estará em eterna desconstrução e reconstrução, sempre terá mais para ampliar sua consciência e mais para aprender. Não aceitar o que recebe antes de argumentar e experenciar pode te render olhares de desconfiança daqueles que estão habituados a reprodução, mas já é em si defender uma postura de apropriação de si mesmo que vai contra a postura servil e submissa que aprendemos durante toda a vida.

*Agradeço demais o vídeo mais do que emergencial da Jout Jout junto com a Mahmundi, repensando o nosso posicionamento reativo naturalizado dentro dos contextos de militância. Foi de suma importância para que eu conseguisse colocar palavras em reflexões e sentimentos espalhados em mim já há alguns anos. –

 

Texto de Erika Hoth

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Erika é estudante de psicologia pela UFF, praticante de bruxaria, cartomante e dona da página Coruja Escarlate – Oráculos e autoconhecimento. Nas horas vagas é dançarina, jardineira, rata de livros e de animações. Autêntica, livre, bem humorada e amante da espiritualidade e do autoconhecimento.

 

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