O que é e como cuidar da saúde mental

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Falar de Saúde Mental aqui no blog foi um desafio. Isso porque até pra mim, estudante de psicologia, quase formada, que já conheço as manhas das palavras chave da internet, foi difícil encontrar bom conteúdo sobre o tema. Quem dirá pra você que tanto ouve falar desse termo que caiu na boca do povo, mas encontra um monte de informações desconexas e rasas.

Não é a toa que é tão difícil entender o que é saúde mental: a própria OMS reconhece que não existe uma definição certa e clara sobre o que é isso. Diferentes culturas, teorias e a própria compreensão de cada uma de nós sobre o que é, não permitem definições simplificadas e exatas. O termo também é amplamente usado na psicologia para falar sobre “transtornos” e sobre a luta antimanicomial, por exemplo. Mas hoje, o que vamos abordar é esse termo da forma popular que é compreendido.

Pensando desse modo, encontrei várias definições interessantes em minhas pesquisas. Todas elas concordam em uma coisa: falar de saúde mental é falar sobre a forma que vivemos a nossa vida cotidiana. Muito mais do que falar sobre transtornos de humor, comportamento ou raciocínio, falar de saúde mental é falar sobre o movimento contínuo que o ser humano faz na direção do seu bem estar. Da busca do ser humano por uma forma de vida que o sustente frente às adversidades e na constante construção de si mesmo e da sua maneira de estar no mundo. É sobre encontrar um modo de vida que faça sentido para nós, permitindo que a gente lide com as demandas externas sem deixar de mão nossas emoções e o nosso bem estar.

O aumento dos casos de depressão, ansiedade, pânico, fobias, e de relações cotidianas focadas na ausência de diálogo e na agressividade são indicativos claros da necessidade de abordar esse tema. Segundo dados de 2017 da OMS, o Brasil é o campeão latino-americano em casos de depressão, campeã mundial em relação à ansiedade e o quarto colocado nas taxas de crescimento do suicídio entre os jovens do Sul e da América Central. Vivemos em uma sociedade onde os indivíduos vivem com o alto grau de liberdade e de controle de variáveis que a ciência nos proporcionou, o que é maravilhoso. Mas também vivem uma sensação de desamparo e de ansiedade existencial.

Essa vida insatisfatória torna-se um benefício para alguns interessados. Devemos ter cuidado, inclusive, com os imperativos sociais de felicidade constante. Tanto as falas das grandes empresas, que insistem em dizer que todo o seu sofrimento vai acabar e você vai ter felicidade constante se comprar só mais um produtinho, quanto as perspectivas dos livros de autoajuda e espiritualidade que vendem fórmulas mágicas para que você seja eternamente feliz daqui por diante – todas essas perspectivas nos fazem pensar que há algo errado conosco, já que nossa vida não é assim tão incrível, e os conflitos e frustrações da existência continuam a aparecer constantemente.

Enquanto isso, aspectos realmente relevantes para o nosso bem estar, como a nossa autonomia sobre o que fazemos sobre a nossa vida, nossa capacidade de estar inseridos na sociedade e se relacionando com o ambiente ao nosso redor de forma sadia, como cuidamos de nós mesmos e o quanto nos sentimos bem em relação a quem somos, vão sendo soterrados ou deixados de lado. Então, por onde podemos começar a melhorar a nossa qualidade de vida, e com ela a nossa saúde mental? Vamos a algumas dicas:

 

  1. Cuide bem da saúde do seu corpo: dormir bem, fazer atividade física, tomar bastante água, comer de tudo, dando atenção a seus níveis de fome e saciedade. Tudo isso influencia e muito a qualidade da vida que você leva, e portanto, sua saúde mental. Seu corpo e a sua mente não são coisas separadas. A forma como você cuida do seu corpo interfere nos neurotransmissores, nos seus hormônios, no funcionamento dos seus órgãos e também no seu funcionamento cerebral. Portanto cuidar do seu corpo com carinho, não para atender a padrões estéticos, mas para ter uma boa vitalidade, é sim um ato de cuidado com a sua saúde mental. Se você for sedentária, se alimentar mal ou tiver um sono conturbado, te desafio a mudar esse seu hábito por um mês e observar o quanto vai interferir no seu bem-estar.
  1. Encontre hábitos que potencializem sua qualidade de vida mental: encontre atividades que você faça pelo simples prazer de fazer, para relaxar e/ou para observar com atenção o seu corpo, as suas emoções e quem você é. Cada pessoa vai ter o seu jeito de cuidar de si. Abaixo vão algumas ideias:
  • Atividade física: ciclismo, correr, caminhar, ginástica, ioga, dança, natação, futsal, vôlei, trilhas, esportes radicais, artes marciais. Atividade física te motiva, te movimenta e te desperta, e vai fazer muito bem para sua qualidade de vida.
  • Meditação: desde que exista algum outro propósito, não existe a necessidade de ficar uma hora meditando. Mas acordar 10 minutinhos mais cedo, sentar e focar na sua respiração e no fluxo dos seus pensamentos, pode te ajudar a começar um dia mais leve e te tirar da turbulência de pensamentos e afazeres com que muitos começamos a nossa manhã.
  • Hobbies variados: ler, ver filmes, escrever poesias, jogos de tabuleiro, marcenaria, ouvir músicas, tocar um instrumento, jardinagem, cantar, pintar, bordar, artesanato. As possibilidades são muitas e variadas. Desde que seja algo que você faça com prazer, que te ajude a sair um pouco das exigências da vida cotidiana, a relaxar, se expressar e/ou a ter momentos de carinho consigo e compreensão de si mesma, é uma boa atividade.
  1. Melhore a sua rotina: Uma rotina desgastante ou disfuncional pode ser um problema para a sua saúde. Isso porque provavelmente ela vem acompanhada de uma tentativa frustrada de dar conta de mais coisas do que é possível, como se o seu dia pudesse ter 48 horas. É fundamental que você aprenda a priorizar aquilo que é realmente importante pra você. Nossa vida é curta e nossos recursos limitados. Você não vai conseguir dar conta de tudo. Nem de corresponder às suas próprias idealizações. Quando você aceitar que não vai dar para você nadar no dinheiro enquanto tem um namorado incrível, 5 diplomas na sua parede, um corpo de panicat e todos os bens materiais mais fantasiosos que você imaginou, você vai correr o risco de passar a sua vida correndo atrás de coisas superficiais, que te disseram que você precisa querer ter. Priorize aquilo que é verdadeiramente importante para você – e foque naquilo que de fato é essencial na sua vida. Mais uma vez, sem fórmulas: cada pessoa sabe dos seus valores e do que de fato importa para si. Mas é certo que priorizando você vai tirar um enorme fardo das suas costas e, melhor ainda, vai começar a se sentir realizada fazendo aquilo que você de fato gostaria de estar fazendo.
  1. Fique de boas: Relações complicadas podem prejudicar, e muito, a nossa qualidade de vida. Isso não quer dizer que você não possa participar de debates ou conviver com pessoas diferentes de você (aliás, é até bom que você não fique presa numa bolha social). Mas fuja de relacionamentos onde você é constantemente desvalorizada, onde nada que você faz está suficientemente bom, onde exigem que você dê conta de coisas que não são de sua responsabilidade, onde existe uma constante tentativa de ter razão ou de ser superior. Eu sei que algumas vezes não depende de nós, que às vezes essas relações estão acontecendo dentro de casa ou entre colegas de trabalho. Mas sempre que puder, saia dessas relações. Quando não for possível, repense a maneira que você se posiciona frente a elas, e encontre uma forma de estar ali presente que seja o menos danosa possível pra você. Evite também se desgastar com cada coisinha que dá errado, com cada fracasso que te acontece, com cada notícia ruim que aparece no seu feed. Dispender energia com cada irritação, frustração ou desafio do caminho, assim como ruminar pensamentos negativos e desafetos do passado, te desgastam mentalmente e fisicamente.
  1. Cuide da sua espiritualidade: Antes de você pular essa parte, não é exatamente sobre religião que estamos falando. A OMS inclui a espiritualidade no conceito multidimensional de saúde, mas não se referindo a crenças ou práticas religiosas, mas sim a questões como o significado e o sentido da vida. A espiritualidade está naquilo que te auxilia no processo da busca por esse sentido e, portanto, da sua saúde mental. Se você não encontra em religiões um sentido e um significado para sua vida, tudo bem, de verdade. E se você também não acha que a vida tenha um sentido imanente em si mesma, também tá tudo certo. Desde que isso seja algo que te faz bem, que te permite ter autonomia sobre sua própria vida, e tomar decisões que te façam bem, a intenção é justamente essa.

 

Para quem encontra sentido em uma religião ou em crenças religiosas, cabe aqui uma ressalva. A experiência com uma religião pode ser positiva quando potencializa o sujeito e negativa quando a religião manipula e atrapalha o processo de autonomia. A religiosidade pode tanto representar um processo maduro e integrado na busca por um sentido e por uma compreensão da vida, como pode funcionar de forma neurótica e defensiva. Isso significa que se a sua religião te faz bem, faz você se sentir mais forte, mais preparada para enfrentar os desafios do dia-a-dia, ela é boa pra você. Mas se ela faz você se sentir culpada por quem você é, te coíbe a fazer ou deixar de fazer coisas por exigências dela, se ela faz você se sentir impura ou te deixa mal quando você quer se dedicar a qualquer outra coisa, ela não está sendo boa para sua saúde. Reflita sobre o lugar que a sua religião ocupa na sua existência, isso é fundamental.

Cuidar da nossa saúde mental é tão importante quanto é complexo, já que envolve pensar todo o nosso modo de vida, se responsabilizar por nossas escolhas e por cuidar de nós mesmas. Espero através dessa pesquisa ter ajudado você a dar passos na direção de uma boa vida. São conselhos fáceis de compreender, mas não tão simples de se colocar em prática. É realmente muito mais fácil se apegar aos ideais que nos são constantemente impostos. Mas é um esforço que vale muito a pena – e eu gostaria que você tentasse. Por você.

Obs.: Caso você queira contar com ajuda para começar esse processo, ou sinta que não vai conseguir sozinha, abaixo está o link de um site com dicas de aplicativos, de formas de encontrar acompanhamento terapêutico e outras dicas importantes que podem ser um grande apoio para sua jornada.

https://desafiosvidasaudavel.com.br/saude-mental-para-quem-nao-tem-condicoes-de-pagar-9f7b4cf991fc

 

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

 

Autoria da Imagem: desconhecida

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