O que os olhos veem o coração não suporta

25393976_1764264773585839_1459776725_n (1)

Começa assim:

Vocês se conhecem e o tempo do amor magro e autoestima zero meio que evapora. Com ele você esquece das baladas solitárias, dos telefonemas prometidos e dos papos mais rasos que a reserva da Cantareira em período de seca. Ele é gentil, gostoso, abraça forte, pega com jeito. Como não se render?

Os amigos aplaudem a felicidade, a família só falta gritar Aleluia. Os olhos verdes do lindo faíscam quando vocês se encontram, você floresce com tanto namoro, beijo, sexo gostoso. O tempo do desabrochar chegou.

É lindo o que pensam de vocês, o que veem em vocês.

Feio é o que você não tem coragem de postar no Facebook.

Ninguém quer ver o rosto de quem é chantageada, aterrorizada por um amor que se acha no direito de exigir que você agradeça todos os dias por ele.

O cara que suas amigas invejam não pode te cobrar obediência, não tem o direito de usar seus velhos complexos para te prender à imaturidade do ” você não vai achar ninguém melhor que eu “.

A pior dúvida é a plantada por quem a gente mais confia: faz o raciocínio ficar confuso, o bom humor ser insuficiente, o corpo parecer feio, o cabelo perder o brilho. Num relacionamento de uma via só o oprimido vira escada para o outro alcançar a glória de uma falsa perfeição

É justo?

Você recusa o convite para um café com a amiga de trabalho numa sexta à noite e quando tenta falar com ele não consegue, porque o celular está sempre desligado nos mesmos horários.  E repete para quem quiser ou não ouvir que jogou a saia curta que adorava no fundo do armário porque agora tem um namorado lindo, cuidadoso e não precisa desfilar as pernas para algum abusado te cantar.

Mas a verdade que você não conta para ninguém é que não sabe se ele cuida de você ou da própria imagem de macho mandão, controlador.

Seus braços não têm marcas, seu rosto nunca foi atingido por um tapa. Mas as lembranças, o medo de que ele grite durante as discussões por motivos que cria dependendo da neurose do dia, te atormentam, não te deixam.

Ele brilha, você se apaga. Ele se vangloria, você se odeia.

O abuso tem muitas formas.

Você não tem culpa, talvez ele também não. Mas a violência desse namoro tem feito apenas uma vítima.

É assim que uma relação baseada no orgulho e na dependência acaba.

É assim que você quer acabar?

 

Texto por Débora da Silva Consiglio

1 - 12341121_1132849463393240_1675533796139329107_n

 

36 anos, professora para viver, escritora para não. Palmeirense, tatuada, tia de quatro, noiva de um, feliz por vocação, ser humano e feminista em constante evolução.

 

 

Autoria da Imagem: Desconhecida

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *