O que você precisa saber sobre a friendzone

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Com certeza você já ouviu, pelo menos uma vez na sua vida, algum cara reclamando porque uma mulher o rejeitou, ou fez isso com algum outro cara. Muitas vezes, na mentalidade dele, aquele cara era bom demais pra ser rejeitado. Outras vezes, ele se sente menosprezado porque ele teoricamente só serve para ser amigo, e para namorado a menina escolhe outro cara, que geralmente ele vê alguma qualidade masculina (força, beleza, posses) que ele não tem.

Dentro dessa questão, muitos sentimentos podem vir à tona e eles não podem ser negados. A inveja do cara que supostamente é mais do que ele, a dor da rejeição, e o sentimento de inferioridade. Além disso, pode vir a passar por um sentimento de que ‘não é homem o bastante, e por isso não é suficientemente desejável’.

Isso pode fazer com que ele deseje se aproximar de um modelo de masculinidade, que ele já conhece bem desde o começo da sua vida: ser competitivo, guerreiro, não chorar, não demonstrar emoções, ser o provedor para sua família, possuir riquezas e bens materiais. A complexidade e a naturalidade dessas exigências para os meninos desde sua mais tenra idade produzem uma imagem do que é ser homem de verdade, que passa por variações para cada indivíduo que compõe a sociedade, o que não reduz de nenhuma forma a realidade cultural que permeia todas essas impressões.

A masculinidade também ensina o homem a ser competitivo, por isso esse sentimento de ter que se ‘tornar mais homem’ pode ser reforçado se existir outro homem que seja desejado em detrimento dele na história. Um namorado, outro amigo de quem essa menina goste, outro rapaz pra quem ela olhe, todos eles são vistos com olhos de rivais. Ele pode tentar ser como o seu rival, mas a tentativa mais freqüente é a de reduzir a masculinidade ou as qualidades pessoais dele, tudo para se sentir engrandecido. Realmente, eu sei que você ta lendo e pensando no quanto isso é imaturo, mas acredite, ninguém na nossa sociedade é treinado para saber lidar com as próprias emoções, muito menos os homens, e isso faz com que algumas vezes eles tenham atitudes infantis (mulheres não são imunes a isso, mas pertencem a um contexto de socialização que produz diferenças nessa relação com os sentimentos).

Somado a tudo isso, estão outros valores machistas, que aparecem na interação de homens com mulheres. Idéias como a de que as mulheres não podem dizer não, de que os homens é que deveriam poder escolher e menosprezar quem quer que seja, a raiva por elas terem poder o bastante para fazê-lo sofrer. O sentimento de rejeição muitas vezes só pode ser expresso pela raiva (ficar triste, chorar, se abrir ao diálogo, demonstrar fraqueza e sofrimento, tudo isso ameaça o modelo de masculinidade), e isso faz com que muitos homens que em algum momento foram rejeitados – e muitas vezes sentem que precisam reforçar ou provar sua masculinidade – queiram encontrar situações onde podem menosprezar ou submeter outras mulheres. Não isso não é bonito, não é nobre e não é nem um pouco aceitável.

É muito importante enfatizar que muitos desses valores estão entranhados na nossa cultura e vão muito além dos juízos de valor que fazemos das condutas pessoais de cada sujeito. Não, isso não significa que aquele homem que queria te obrigar a namorá-lo só por ser legal seja inocente, e muito menos que se possa justificar ou aceitar o comportamento dele. Mas isso significa que o machismo se sustenta e continua a se reproduzir porque ele vem muito antes de nós, porque ele foi naturalizado.

Dizer que apenas homens ruins e péssimos fazem isso, ou que todo homem faz isso porque homem não presta, pode parecer uma boa solução a priori, afinal é só se afastar deles que está ótimo. Mas a sua amiga, sua mãe, a menina do fundamental que continua se relacionando com os amigos e o namorado, não vai ser atingida por um discurso assim. Ele não pode estar sendo machista ou impositivo com ela, afinal, ele é um homem bom demais, ele não é esse estereótipo de homem abusivo que as feministas falam.

Compreender a dimensão dos nossos valores culturais no nosso comportamento de forma alguma isenta a responsabilidade de cada indivíduo de refletir sobre os significados entranhados em cada uma de suas ações, bem como em modos mais amadurecidos de lidar com sentimentos e emoções que emergem, sobre os quais nossa mente racional e lógica não possuem nenhum controle – sim isso significa que seu amigão de esquerda cheio de valores pró-feminismo não está nem um pouco isento de reproduzir esses comportamentos.

E realmente você não deve, sob nenhuma circunstância, ficar com uma pessoa por pena dela. Também não deve justificar nenhuma atitude agressiva ou impositiva de um homem sobre você quando você diz um não. Você tem total direito de dizer não, você não deve amar um homem só porque ele foi tão legal com você – você não é um prêmio por bom comportamento. Você merece ser respeitada, merece ser admirada e honrada pelas mulheres e homens da sua vida, por todas as qualidades e virtudes que você possui. Isso não te torna um troféu mais bonito, te torna uma pessoa mais complexa, mais rica, e que merece ser valorizada para muito além de relações afetivas e amorosas.

P.S.: Algumas pessoas não vão concordar com isso, outras podem ler e concordar e logo em seguida dizer que por um defeito ou outro você não consegue namorado, ou que você está sendo exigente demais. Elas estão reproduzindo valores de submissão que existem desde muito antes delas. A sua atitude de dizer não, de ignorar, de não mudar para corresponder a um perfil que agrada aos homens é um ato de resistência que pode ajudar todas nós a mudar essa realidade.

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

Autoria da imagem: Desconhecida

 

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