Pertencimento

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A dona do meu corpo sou eu.

Sou a única habitante deste território delimitado por cicatrizes, vivências, sonhos, memórias. Suas paisagens são minha história, cachoeiras, matas, casas em escombros e prédios em construção, estradas bifurcadas e salas vazias.

Nele, não há democracia. Sou imperatriz, rainha, comandante suprema de minhas células, sou eu quem dita as regras de convivência no meu país independente e os caminhos que me farão feliz.

Mas não é isso que o mundo me diz.

O governo quer se apoderar do meu corpo, com suas leis irreais, enfiando minha vida numa minúscula gaiola. Quer me silenciar com esmola, quando o meu desejo é mergulhar no fundo do oceano e encontrar tesouros.

O patriarcado, com sede de posse, inventa novas amarras para usufruir do meu corpo sem o meu consentimento, diz que não tenho autonomia, nem sentimento.

A dona do meu corpo sou eu.

Sereia, leoa, tigresa. Em frente ao espelho, curvo-me diante do reflexo da realeza, beleza que transcende a aparência, força oculta que emana de minha essência.

Mas dizem que meu corpo é fraco.

Julgam-me como pétala frágil e esquecem que sou diamante inquebrável.

As religiões querem escondê-lo, condená-lo, controlar sua existência – agindo de forma incrédula ao reduzirem toda a eternidade às carnes que me compõem. A indústria, com suas roupas e cosméticos, insiste em querer aprisioná-lo a medidas, cores e aromas pré-fabricados – enxergam o corpo como fonte de riquezas, mas não as reais, apenas as moedas, os bens materiais.

O mantra ecoa dentro de mim: a dona do meu corpo sou eu.

Repito, incansavelmente, a cada grito de assédio que escuto nas ruas. Como se minha voz fosse capaz de se sobrepor ao barulho que afirma que não sou minha, que pertenço a terceiros, aqueles que se acham os verdadeiros donos desse corpo cansado de lutar.

Quando me dizem: “volte para o seu lugar”, respondo que meu corpo é bússola, indicando a direção. O cansaço me aflige, a desesperança me empurra para fora dos eixos, mas deixar de seguir em frente ou parar no meio do caminho nunca foi uma opção.

A dona do meu corpo sou eu.

Mesmo que o mundo inteiro me diga que não.

 

Texto por Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga

 

Autoria da imagem : unsplash.com

 

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