Quando conheci a minha avó

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Fui uma adolescente chata: gritava por qualquer coisa com a minha mãe, não entendia seus posicionamentos, achava que ela não me dava a liberdade que minhas amigas tinham porque era uma mãe mais velha e careta que a delas. E tinha na ponta da língua a grande responsável pelos nossos embates diários:

Minha avó.

Desde pequena, eu tentava amarrar alguns fios soltos no passado da minha mãe. Meu avô era maravilhoso, mas eu sentia falta de saber mais sobre minha avó, além do seu nome.  Passei anos sem ter ideia de como era seu rosto. Maior, comecei a responsabiliza-la pela falta de compreensão da minha mãe comigo, porque elas não conviveram enquanto ela era viva.

Eu era tão infantil.

Minha mãe e minha tia não foram criadas pela mãe porque ela não as amava. Na década de 50, as doenças da alma eram ainda menos entendidas do que hoje e para uma mulher que padecia delas a incompreensão era gigantesca, cruel.

Como foi com a minha avó materna.

Passei a conhecer a dimensão de sua trajetória num dos dias mais tristes da minha vida. Ao ler a notícia de um crime que vitimou um amigo meu, minha mãe começou a chorar, porque o jornal a lembrara do último boato que ouviu sobre minha avó. Assim, ela desabafou comigo, sua filha adulta. A partir daí abandonei minha ignorância em nome de nossa história.

Trouxe a memória de minha avó ao seu lugar merecido antes que ela se apagasse de vez. A única foto que conheço dela é a do casamento com meu avô. Linda, foi a partir desse registro solitário e da coragem da minha mãe, que partiu minha decisão de respeitar, com as minhas forças, de herdeira a sua imagem.

Muitas pessoas ainda demonizam a depressão e outras doenças mentais não importa suas formações, classe social e se esquecem de que o conhecimento pode salvar vidas. Ao aprender sobre as verdadeiras condições de minha avó e o emocional da minha mãe, passei a dar valor (e a agradecer) a tudo o que ela fez e faz por mim e consegui procurar ajuda quando eu mesma parecia fugir da minha sanidade.

O mundo fraco no qual minha avó viveu hoje é o lugar onde eu, sua neta mais nova, não tem mais vergonha de suas raízes, e nem medo de entender que os fatores que nos separaram não são nada perto dos laços que nos unem.

Passei da incompreensão ao amor.

Nunca mais culparei a minha avó.

Ela me deu a minha mãe.

 

Texto por Débora da Silva Consiglio

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36 anos, professora para viver, escritora para não. Palmeirense, tatuada, tia de quatro, noiva de um, feliz por vocação, ser humano e feminista em constante evolução.

 

 

Autoria da Imagem: Desconhecida

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