Ser plural e integração

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Este texto fala de uma reflexão desse último mês, mas mais do que isso, ela sintetiza algo que precisei de anos para entender. Em 2014, rompi com tudo a que me dediquei na vida até aquele momento, aproveitando o fim do meu ciclo de tempo na igreja evangélica e o início do meu tempo na universidade pública. Comecei uma fase de busca pra entender quem eu era, o que eu gostava, quais eram meus sonhos, meus valores, minhas qualidades, meus pontos fracos…

Hoje sou consciente do quanto essa busca é interminável, mas carrego comigo um amplo repertório de experimentações. Ampliei o meu olhar, para dentro e para fora de mim. Depois de alguns anos de busca, comecei a emperrar num paradoxo: quanto mais eu tentava definir ou pelo menos entender quem eu era, mais eu escapava das minhas próprias considerações. Parecia que era muito grande, ou muito paradoxal, para caber em qualquer forma que eu fizesse pra mim.

Junto a isso, começaram as “pressões sociais”. Não gosto muito desse termo, porque ele dá a impressão de um indivíduo que está fora do laço social, sendo massacrado por uma sociedade má que tenta lhe oprimir. Sei que as coisas não são tão simples. Mas todo grupo social para existir, precisa criar certas convenções, que formam o próprio caráter identitário do grupo. O que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode… E o meu problema era que eu não conseguia me encaixar em nada.

Por exemplo, eu sempre gostei do sagrado feminino, e também amo o feminismo. O resultado era que as mulheres nos grupos de sagrado feminino me achavam muito nervosa, muito profana ou muito radical. E as feministas me achavam muito bitolada, ou hipócrita, ao me envolver com uma prática que elas acreditavam limitar as mulheres. Me envolvi em discussões dificílimas sobre o que é ser mulher, a importância de uma vagina e um útero, a possibilidade de um aborto… A lista é enorme. Não me sentia (e às vezes ainda não me sinto) completamente acolhida em nenhuma dessas rodas de mulheres.

O mesmo acontecia, em maior ou menor escala, em muitas outras áreas da minha vida. Eu gostava de meditar e gostava de dançar funk, queria fazer reiki e não queria ser vegetariana,eu era espiritualista mas também estava dentro da universidade, fazendo ciência. Sempre senti que todos aqueles interesses e todos aqueles grupos dos quais faço parte são importantes pra mim, mas que não me encaixava perfeitamente em nenhum deles, nenhum deles era capaz de suprir todas as minhas necessidades.

Aos poucos, tive contato com muitas ideias que me ajudaram a pensar. Uma delas foi a multipotencialidade, que é definida como a habilidade e/ou a forte curiosidade de uma pessoa por dois ou mais interesses simultaneamente, sem conseguir escolher entre um ou outro. Quem usa esse termo entende que são essas pessoas que são responsáveis pelo rompimento dos paradigmas e com a promoção do diálogo entre saberes distantes. Eu me identifiquei prontamente com o termo quando o conheci.

Dentro de algumas correntes da psicologia, um termo que também me chamou atenção era “integrar”. No caso da gestalt-terapia, é dito que uma pessoa pode ser calma e pode ser nervosa, pode ser preguiçosa e produtiva, feia e bonita, teórica e prática… E que o grande problema está no momento em que ela começa a considerar um desses lados como o errado e o outro como o correto, se impedindo de manifestar a parte adequada no momento adequado da sua vida. Por exemplo, se uma pessoa considera que nunca pode se irritar, e que sempre deve ser calma e dócil, ela tem grandes probabilidades de não querer enxergar a própria raiva, de engolir seco, ou até de passar mal. Não saber sentir o que deve fazer no momento que deve fazer é uma das definições da gestalt-terapia para a neurose.

Aprender isso pra mim também foi aprender que não posso manifestar apenas o lado claro ou o lado escuro da minha personalidade. Que eu não posso abandonar o meu lado agressivo pra mostrar apenas o meu lado compassivo, e nem o oposto. Que também não posso soterrar o meu lado que gosta de dançar pra manifestar apenas o meu lado que gosta de ler, por exemplo. Eu preciso ser INTEIRA, e não posso me sentir em paz comigo mesma enquanto não conseguir aceitar a complexidade que existe em mim.

Na espiritualidade eu também tive contato com termos que me ajudaram a me integrar. Quando fiz algumas aulas básicas online de astrologia, estudei a energia do signo de gêmeos, onde estão meu mercúrio e minha vênus no mapa. Independente do que você acredita ou não, entenda: gêmeos para astrologia é um signo de ar cardinal, ligado a criatividade, ao bom humor, ao gosto pelo aprendizado, ao pensamento dinâmico. Muitas pessoas com forte influência desse signo, para a astrologia, são pessoas que mudam de planos e de interesse com muita facilidade, que fluem entre diferentes campos do saber.

As ideias neopagãs também trazem a figura de uma deusa de muitas faces – dos dez mil nomes e infinitas possibilidades, como diz a canção – ou mesmo de muitas deusas de personalidade complexa. Inúmeras deusas antigas manifestam aspectos em sua personalidade que nossa cultura considera antagônicos (ou mesmo tabus para as mulheres). Existem deusas da guerra que também são deusas do amor. Existem deusas que são criadoras da vida e também são as senhoras da morte. Quando eu tive contato com as histórias de todas essas deusas, indubitavelmente fui influenciada a olhar pra mim mesma como alguém que podia manifestar um repertório muito mais amplo de atitudes e pensamentos.

O último conceito, com o qual tive contato recente, foi através da Bebel Clark, uma facilitadora de círculos de mulheres e bastiã do sagrado feminino em nosso tempo. Ela fez um vídeo em seu canal do youtube que falava sobre ser uma pessoa plural: uma mulher que permite manifestar e se dispõe a articular todos os seus interesses e aspectos de personalidade, basicamente. O vídeo dela tem uma linguagem simples, poucos minutos, mas foi o estalo que eu precisava pra sintetizar todos esses conceitos e conhecimentos que adquiri no decorrer desse tempo. Foi com essas palavras que refleti durante o mês.

Comecei com perguntas simples: já sei do que eu gosto? E sim, eu já tinha consciência do que eu gostava. Bem, então qual era o problema? Depois de muita reflexão, identifiquei dois problemas: o primeiro era que não me sentia aceita nem pertencente a nenhum grupo. O segundo era que como eram muitos interesses, era difícil delimitar o tempo e a energia gasta pra lidar com todos eles ao mesmo tempo.

O primeiro problema eu confesso ainda não ter resolvido (e provavelmente ainda vai render um texto inteiro). Foquei primeiro em tentar compreender o segundo. Pesquisei algumas coisas, mas percebi que a resposta não era teórica. Cheguei a mandar mensagem pra Bebel, que fez o vídeo, e ela foi bastante solícita em me responder. Me ofereceu algumas portas de entrada para refletir.

Eu concluí, depois de mergulhar fundo na questão, que quando se tem muitos interesses você precisa aprender a priorizar, saber o que te importa mais e o que te importa menos. Saber o quanto você pretende se dedicar a cada um dos seus interesses. Precisa considerar onde cada interesse vai se encaixar na sua vida, quais podem virar proposta profissional, quais vão se tornar hobbies; quais serão frequentes e quais serão ocasionais.

Vai ser de grande valia pra você perceber qual é o fio condutor que une todos os seus interesses. Eu, por exemplo, já percebi que o principal motivador pra ter desenvolvido meus interesses é expandir a consciência, ampliar minha percepção de mim mesma e da realidade. Sabendo que isso é o que me move, as atividades e interesses que eu escolher vão ser apenas meios para atingir o meu objetivo principal. E com isso, fica muito mais fácil de entender o tamanho da importância que cada coisinha da sua vida tem pra você.

Ser uma pessoa plural, a meu ver, requer pagar um preço alto. Por vezes você mesma vai esbarrar nas suas contradições, e vai se sentir terrível com elas. Vai ser uma delícia quando você conseguir unir dois interesses em um só projeto, mas vai ser um fardo quando algumas pessoas começarem a te apontar o dedo e a se afastar porque você não correspondeu a expectativa delas de quem elas acham que você deveria ser. A maior parte das pessoas vive pela metade, apegada a padrões, e tem grandes chances de te repudiar quando você não se encaixar nele.

É como a Clarissa Pinkola Éstes fala no seu livro Mulheres que Correm com os Lobos, em alguma parte que não me recordo bem: abraçar a si mesma e se priorizar vai fazer com que você deixe de lado muitos outros, e priorizar muitos outros vai fazer com que você abra mão de si mesma. A escolha é difícil, mas ela é bem clara. Em uma sociedade que treina as mulheres para serem boas demais, perfeitas, buscadoras de um ideal que existe apenas para satisfazer o outro; tomar as rédeas da própria vida e permitir manifestar toda a amplitude de seu ser mulher, é uma atitude infinitamente corajosa. Em uma sociedade que lucra com a nossa insatisfação, e que nos diz que a nossa angústia devia ser preenchida com o que os comerciais dizem ser o melhor pra nós, assumir a atitude de manifestar os próprios interesses é assumir uma postura autêntica e de extrema autonomia e poder sobre a própria existência.

 

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

Fonte da Imagem: Pinterest

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