Sobre se cuidar e gostar de você

Com a formatura chegando e o fim das tarefas acadêmicas, o bom é que eu posso me dedicar a estudar coisas que eu realmente me interesso. Comecei a ler artigos sobre autoestima, interessada em tudo que a psicologia tem a falar sobre um termo já tão usado na linguagem popular, e também porque, no fim das contas, eu acho que nunca fui muito boa nisso.

Pensei em escrever esse texto, a princípio, com informações científicas e acadêmicas – mas percebi que queria falar sobre isso de uma maneira mais pessoal. Esse texto, portanto, tem a ver com tudo que estudei e li em meu campo de atuação, mas também com minhas próprias experiências de vida. Não falo apenas como psicóloga, mas também como mulher e como sujeito no mundo.

Afinal, o que é essa tal de autoestima? É se sentir bonito? Huuum… É gostar de si mesmo? É o oposto de se sentir feio, inseguro ou talvez incapaz? Talvez um pouco disso tudo, mas é muito mais. Autoestima, antes de tudo, é um sentimento. Sim, como a felicidade, a esperança ou o pavor. Portanto não é algo que pode ser conquistado e nunca mais perdido. Existe uma forma de estar alegre o tempo todo? Por mais que seja muito bom estar assim, não é assim que nos sentimos sempre não é?

Mas convenhamos que alguns sentimentos estão mais presentes na nossa vida do que outros. Vamos falar, por exemplo, da agressividade. Todo mundo já sentiu raiva, já se irritou com alguma situação ou teve aquela vontade de gastar o réu primário. Mas existem pessoas que são a calma em pessoa, e que até espantam as outras quando finalmente demonstram se irritar. E tem pessoas que parecem estar irritadas na hora de acordar até a hora de ir dormir, que reclamam de tudo e que tem muita facilidade pra se zangar. Assim também é com a autoestima.

Bom mas que sentimento é esse afinal que chamamos de autoestima? Esse é o nome que atribuímos ao sentimento de que somos amadas, livres para apresentar iniciativas e pra nos comportarmos da maneira como desejamos sem perder o amor dos outros por isso.

O problema é que a maioria de nós não somos criados para pensar assim sobre nós mesmos. Limites para a convivência social são normais e inclusive saudáveis – quem não tem limite nenhum não consegue sobreviver nem conviver em sociedade. Porém, a forma como os limites são colocados muitas vezes incluem chantagens dos pais, agressões verbais e físicas, ou mesmo ouvir frases como “ninguém vai gostar de você se você for assim”, ou “isso não é coisa que uma menina bonita faz”. As crianças não entendem isso como nós. Elas realmente tem medo de perder o amor dos pais, e quando ouvem algo assim, levam isso pro mais literal que se possa imaginar. E infelizmente esse é o tipo de criação mais comum que existe.

O ambiente é muito mais importante para a formação de quem somos do que nossa vontade de não depender de ninguém e ser ‘empoderadona’ gostariam que fosse. Em casa, na escola e em todos os nossos ambientes de convívio, durante toda a infância e adolescência, somos admirados e recebemos prêmios por tudo aquilo que fazemos de bom, e também somos punidos, rejeitados e menosprezados quando não agimos conforme o esperado. Isso não é um aval pra todo mundo passar a mão na cabeça de criança nenhuma.

Mas muitos são os pais que se esquecem de assistir a um programa de TV ou levar os filhos pra passear, não como recompensa por algum feito, mas sim por amor. Ou que não se propõem a diálogos e ajudas, apenas exigem bom desempenho dos filhos em suas tarefas. Muitos também são os amiguinhos que só estão por perto enquanto você ajuda na matéria, é bom em jogar bola ou tem uma caneta pra emprestar. Os professores que não dão a mínima pra você até que você se torne aluno destaque. E é isso que faz alguém crescer com a ideia de que não é merecedor de amor, de coisas boas, a menos que ofereça uma ‘moeda de troca’ por isso. E que não pode tomar suas próprias iniciativas, nem agir como quer e ser chato de vez em quando – porque quem faz isso não merece ser amado.

Não podemos desconsiderar também que muitas crianças se tornam bodes expiatórios pra todo tipo de maldade consciente e inconsciente na família e em todos os seus meios de convívio (e portanto pra todo tipo de abuso físico, psicológico e até sexual). Em um exemplo um pouco mais ameno, quando um pai chega estressado do trabalho, vê que o filho não fez o dever de casa e dá berros com ele que podem ser ouvidos por toda a extensão da rua, aos olhos de qualquer adulto com um pouco de atenção, ele está descontando no filho algo que não tem a ver apenas com o comportamento dele. Mas a criança não sabe disso, ela realmente vai achar que a atitude tomada tem tudo a ver com ela.

Em suma de início aprendemos a desenvolver o sentimento de autoestima na medida em que recebemos afeto dirigido do outro, seja esse outro os nossos responsáveis, ou amigos, enfim, relacionamentos do nosso meio de convívio. O ideal é que a medida do possível nós aprendamos a manter esse sentimento por nós mesmos, aprendendo a se observar e a reconhecer os nossos comportamentos que produzem consequências positivas para nós. Mas como deu pra observar, muitas vezes não é isso que ocorre, e por isso os problemas com a autoestima são extremamente comuns. Um ambiente hostil, onde a pessoa é muito criticada, censurada ou rejeitada, pode levá-la a acreditar que ela é inadequada ou incapaz de receber o afeto do outro, ou que só vai receber isso se agir conforme aquilo que se espera dela.

Em maior ou menor grau, nós não aprendemos a agir para o nosso benefício. Não aprendemos a considerar como adequados os comportamentos que são benéficos e produzem boas consequências para nós. Principalmente as mulheres – já reparou como as mulheres sentem culpa por fazer qualquer coisa boa pra si mesmas sem que os maridos, os filhos, amigos ou outros membros da família sejam beneficiados de alguma forma?

O fato é que poucas pessoas aprendem a se exercitar por amor ao corpo, e sim pra se adequar a um padrão estético. Poucas pessoas aprendem a separar um tempo pra si mesmas e a explorar seus interesses não por retorno financeiro ou status – e só porque são coisas que se gosta. E aí é que está a solução. O ser humano sempre tem a liberdade e o dever de aprender e de se inventar. Todos precisamos aprender o autocuidado. A praticar ações que nos façam bem, mesmo quando isso não traz nada de bom pros outros, ou até mesmo quando não é benéfico para outras pessoas em volta.

Autocuidado na prática é algo que pode envolver todo o seu dia. Acordar mais cedo pra estar mais disposto – ou acordar mais tarde porque hoje você precisa mesmo descansar. Se permitir comer aquele doce, só porque você quer, mas não exagerar demais pra manter a sua saúde em dia. Fazer atividade física, beber bastante água, levantar do computador pra fazer um alongamento, encontrar uma forma de estudar ou trabalhar que diminua aquela sua dor nas costas ou enxaqueca. Separar todos os dias um tempo para ler um livro, meditar ou praticar qualquer outro hobbie. Isso é autocuidado diário. Infelizmente (ou talvez não) não tem fórmula nem regra possível, porque em cada momento precisamos de algo. Mas se você parar pra pensar, quando amamos um namorado, um filho, um parente ou um amigo, a graça está justamente em estar com essa pessoa em todos os momentos, torcer por suas conquistas, apoiar nos seus fracassos, passar um tempo com ela só pra desfrutar daquela companhia. E nós podemos nos tornar capazes de fazer o mesmo por nós. Eu ainda estou aprendendo. Mesmo quando eu me sinto muito mal a meu respeito, e mesmo quando eu não tenho a menor vontade, eu me esforço pra fazer aquilo que eu quero e preciso. Às vezes eu consigo e às vezes não. Mas com certeza é com a prática que nos tornamos cada vez melhores em qualquer coisa na vida.

Texto por Erika Hoth

29178183_551193038599553_5961380852700020736_n

Erika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

Autoria da Imagem: desconhecida

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *