Mulheres possíveis – as verdadeiras heroínas

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O tema da representatividade está em voga. E não é à toa – de fato, precisamos de mais mulheres e de mais diversidade na ficção e nos meios de comunicação. Principalmente nas histórias e nos conteúdos voltados para crianças e jovens.

A representatividade é essencial para mostrar que nós mulheres somos incríveis e capazes de obter grandes conquistas. É urgente que sejamos retratadas como muito mais do que meras princesas ou donzelas em busca de um príncipe.

Saindo do universo dos contos de fadas, estamos ganhando espaço em narrativas que antes eram consideradas como masculinas. Isso é muito saudável, pois o mundo está acostumado a associar o heroísmo ao homem, e sabemos que isso não passa de um equívoco.

O nosso imaginário necessita de arquétipos, semelhantes aos das heroínas como a Mulher Maravilha, para que possamos construir a figura mítica da pessoa que inconscientemente desejamos nos tornar. Através destas heroínas, vivemos nossas fantasias infantis e adolescentes. Elas são tudo o que gostaríamos de ser. Leia mais… »

Nem bonecas, nem de papel

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O valor que a sociedade atribui à mulher costuma estar intimamente ligado ao seu corpo. Um receptáculo imaculado e puro, uma obra de arte para ser possuída e ostentada. Sua castidade é uma bandeira, um troféu que os homens desejam levar para casa.

Afinal de contas, a mulher deve ser bela, enquadrar-se nos padrões de comportamento, ter uma forma agradável, um porte elegante. Ser polida e lustrosa e imóvel como um troféu. Deve preservar sua castidade a todo custo, entregando-a apenas a alguém que mereça, que conquiste arduamente este “prêmio”, derrotando gigantes, matando dragões, bruxas e quebrando maldições. Como um príncipe encantado, que só existe como um vulto distante.

E, se ela não oferece de bom grado este tesouro, este mistério, então um homem pode roubá-lo para si. Porque nada mais naquele corpo vazio importa quando levam dele o que há de mais sagrado.

Que coisa mais horrível de se impor a alguém.

Quando uma mulher é violentada, não se fala sobre o corpo marcado, sobre as feridas e sobre a culpa de ter sido invadida, mas sim sobre o valor que se perdeu. Como se fosse um objeto usado e sem viço, uma flor murcha, um cristal que perdeu o brilho.

Que maneira mais desumana de tratar o sofrimento alheio. Leia mais… »

Sobre leite, mel, gritos e luta

Quando li o título do livro da Rupi Kaur em português, achei estranho o fato de o original Milk and Honey (“Leite e Mel”) ter sido traduzido como Outros Jeitos de Usar a Boca. Como tradutora, sei que essa prática de alterar totalmente os nomes das obras literárias é algo comum quando se adapta um trabalho artístico para outro idioma.

Ainda assim, continuei a pensar que este título adaptado não faria jus a diversas referências, tanto ao leite e ao mel, verbetes recorrentes nos poemas do livro, quanto aos significados históricos e místicos aos quais a expressão “leite e mel” fazem alusão.

Foi só depois de ler as palavras meio doces, meio amargas de Rupi que compreendi esta escolha e achei incrível como o trabalho da tradução enriqueceu ainda mais o significado deste livro tão empoderador. Leia mais… »

O Conto da Aia e os papéis que nos objetificam

*Esse texto pode conter spoilers do livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood

Esposa, cozinheira, amante, reprodutora, salvadora, não mulher. É assim que as mulheres são catalogadas na história do livro O Conto da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood. Uma série com o mesmo nome, baseada no livro, já está sendo transmitida pelo canal de streaming Hulu.

A democracia no conto da aia huluão existe mais. O poder está nas mãos de fundamentalistas religiosos, que proibiram as mulheres de trabalhar, de utilizar dinheiro, de ler, escrever ou manter relações de amizade ou amorosas. As punições para quem discorda ou sai da linha são severas e os transgressores e transgressoras são usados como exemplo em “rituais de salvamento”, nos quais são linchados e condenados à morte. Seus corpos são exibidos no Muro, um lembrete do que acontece com quem desafia a autoridade.

Aniquilada pelas guerras, a sociedade apresentou quedas nas taxas de natalidade, por isso as mulheres férteis são uma raridade e tratadas como bens de consumo, dos quais apenas os homens ricos podem usufruir. E quanto mais elevada for a posição social, mais mulheres um homem irá possuir a seu serviço. Leia mais… »

Cara limpa

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Não costumo sair de casa sem batom. Embora meu estojo de maquiagens esteja criando teias de aranha – rímel, sombras, delineador, todos esquecidos no fundo do armário – a cor nos lábios é quase um imperativo. Uma obrigação de cuidado comigo, de causar impacto, marcar presença. Compromisso firmado de nunca sair de casa sem ele. Ou eles, já que em cada bolsa carrego uns quatro ou cinco. Uma coleção de guarda-chuvas contra a cara abatida e os olhares de nossa, você está tão cansada ou que foi? está doente?. Porque, no imaginário de quem nos analisa, sem maquiagem também significa alguma maquiagem. Uma base leve, um batom rosado “cor de boca”, rímel transparente, lápis branco, blush clarinho. Colocando produtos para parecer que está com a cara limpa.

Acho que só vejo meu rosto totalmente limpo quando acordo. Acostumei tanto com ele fantasiado de vermelho, lilás ou cor de vinho – e, ocasionalmente, preto – que quase não me reconheço ao ver a cor natural dos lábios refletida no espelho. O reflexo, nestes casos, é semelhante a uma antiga fotografia em preto e branco, com a iluminação estourada, um fantasma com baixo contraste. Leia mais… »