Um brinde às nossas imperfeições

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O outono da terra e o outono da minha alma

Eu não estou no momento mais expansivo da minha vida. No auge do outono, essa estação em que a terra se limpa, as árvores deixam cair suas folhas, o frio se tornando cada vez mais intenso, eu me permiti minguar. Muita gente pensa que uma mulher que escreve para um blog, que faz faculdade, que tem um círculo de mulheres e que “sabe prever o futuro nas cartas” deve ter tudo resolvido na mão. Não foram poucas as vezes em que eu ouvi que eu era incrível, que eu era uma inspiração, que alguém ia fazer algo porque eu indiquei ou que eu era um ótimo exemplo.

Não leve a mal se você já me disse isso, sério. Eu realmente acredito e fico muito grata por ter te ajudado em algum momento da sua vida! E eu também já recebi muita ajuda em forma de carinho, em forma de bom dia, em forma de silêncio… nem sempre a ajuda chega com palavras. Nem sempre uma pessoa vai saber ou vai entender o quanto ela foi importante para mim em um momento de necessidade da vida. Estamos todos interligados nessa grande experiência chamada vida, e estamos todos afetando uns aos outros o tempo todo. Então, fico feliz que soubemos usar desse nosso poder de conexão da melhor forma possível.

O problema é que, por vezes, você pode se tornar uma pessoa idealizada. Quando você organiza um círculo de mulheres, por exemplo, outras mulheres podem ficar espantadas ou até indignadas quando você diz que não sabe a resposta de algo, ou que você nunca pensou sobre um assunto. Algumas vezes você diz que vai ler um livro ou estudar sobre algo e ouve um “nossa, mas você já sabe tanto”. Ás vezes, uma pessoa quer ser igual a você e começa a fazer coisas porque você indicou ou porque você disse que faz. Já quando você faz algo como psicologia, todo mundo acha que você tem as respostas para os problemas emocionais das pessoas e a solução para os nossos problemas sociais todos contidos no seu fantástico poder da empatia.

E não, por “incrível que pareça” (ironia) eu sinto dor de cabeça, eu deixo de ler texto da faculdade, eu falo muito palavrão e eu sou muito fácil de irritar. Eu choro às vezes sem fazer a menor ideia do porque eu estou chorando (nooossa, a menina da “reconexão consigo mesma” não entendendo o que se passa dentro de si, chamem uma ambulância !), eu faço piadas horríveis e eu deixo de fazer coisas porque fico com vergonha. Eu passo vergonha tropeçando na rua, falo sozinha e geralmente ouço uma música me imaginando como protagonista do clipe. Eu tenho manias estranhas e sou quase uma viciada em doces – todo meu amor e respeito por vocês, chocólatras anônimos.

Mas eu também adoro dançar no quarto sozinha, sou muito dedicada e muito constante nos meus estudos, sei fazer piadas boas e morro de rir de qualquer piada que você fizer. Eu também sei dar bons conselhos muitas vezes e comecei a aprender a pedir ajuda quando eu preciso. Eu não passo um dia da minha vida sem procurar beleza por onde eu olho, e eu sei ser muito sensível e receptiva quando eu quero. Você consegue conversar comigo durante horas, principalmente se você sabe alternar assuntos como política brasileira, rock nos anos 80 e melhor shampoo para cabelos cacheados; tudo na mesma conversa. Eu reflito muito e realmente tenho opiniões que sei que vale a pena você parar e ouvir.

Eu diria que sou uma pessoa normal, com qualidades, com defeitos, com manias… Mas digo melhor ainda: qualidades ou defeitos dependem do meu ponto de vista. E digo mais: quando uma pessoa pensa algo sobre mim, é bem mais provável que ela esteja vendo em mim um reflexo de um aspecto dela. E eu… quem sabe seja só a sua imagem e semelhança. Mas esse é outro assunto.

O fato é que eu ser exatamente a pessoa que sou agora, com todos e muitos outros traços além dos que eu citei, é uma dádiva. Ao contrário do que talvez uma ou outra tradição religiosa ou filosófica diga, eu acredito que só posso olhar e compreender a fragilidade do outro a partir da minha fragilidade. Eu só posso acolher uma pessoa porque sei que precisei ser acolhida. Eu só posso ajudar uma mulher no meu círculo a se conectar com o feminino porque eu sei exatamente como é estar completamente longe de si. É maravilhoso que na vida nem tudo aconteça do jeito que eu quero, pois nem sempre eu sei o que é o melhor para mim. É incrível que eu possa transformar minhas dores em solo fértil para o meu crescimento, que se transforma em frutos na minha vida. E eles podem fertilizar o solo ou lançar uma sementinha nos terrenos de outras vidas.

 

Texto por Erika Hoth

E29178183_551193038599553_5961380852700020736_nrika Hoth é estudante de psicologia pela universidade federal fluminense. Nas horas vagas é escritora, rata de livros, dançarina e cartomante, realizando consultas online e divulgando conteúdo na página Coruja Escarlate. Bem humorada e comunicativa, ama conversas longas, explorar diferentes saberes e apreciar a beleza da vida.

 

 

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