Um papo e um café com Natalia Sminorva Moraes

 A Natalia Smirnova Moraes tem uma vida que parece um enredo de um filme do Tim Burton : nascida na Rússia, filha de um renomado artista circense e uma bailarina do Bolshoi, ela cresceu nos picadeiros, se apresentado ao redor do mundo  em shows itinerantes desde os cincos anos de idade. Em 1995 sua família recebeu uma proposta de um grande circo no Brasil e desde então nosso país é seu lar. Depois de 19 anos de espetáculos, Natalia deixou a vida circense e acumulou um dos currículos mais ecléticos que você vai encontrar na sua vida : já foi balconista, modelo, vendedora, auxiliar de professor de artes cênicas, maquiadora, assistente de comunicação em uma empresa internacional (onde tive o prazer de conhecê-la), designer e agora autora de um livro de fantasia recém-lançado na Amazon : “O Saotur “.

Depois de passar um fim de semana devorando seu livro, marcamos uma desajeitada – mea culpa – e descontraída conversa via Skype. Entre um gole e outro de café, nós falamos sobre a sua experiência como escritora de primeira viagem, sobre seus gostos literários, mulheres na literatura e como ela aposta que a internet pode provocar uma mudança significativa no mercado editorial.

Senhoras e senhores, com vocês a versátil e criativa Natalia !

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Café das Minervas – De onde veio a sua vontade de escrever ?

Natalia Smirnova Moraes – No início era uma válvula de escape. Eu sempre escrevi, mas por diversão mesmo e na realidade eu nunca pensei em publicar. Até hoje eu não tenho esse sonho de publicar em uma grande editora.  Eu estou bem pé no chão, estou bem de boa com as minhas historinhas, estou na manha. Veio mesmo de uma válvula de escape, porque você vive no mundo dos shows, vive no mundo do circo. Eu trabalhei por 10 anos em um parque temático, então você vê coisas e você quer escrever alguma coisa diferente, então vem disso.

Café das Minervas – Quais são os seus autores e livros favoritos ?

Natalia – O livro favorito de toda a vida será eternamente será “O Conde de Monte Cristo”. Eu tenho ele em russo, depois eu li em português também, há um tempo. Se pudesse, leria em inglês também. Adoro, adoro, adoro !

Café das Minervas – Tem outros autores ou gêneros que você gosta mais?

Natalia – Os meus gostos para livros são como os de música: eu me apaixono pela música, então eu me apaixono pelo livro. Pode ser de qualquer gênero, eu não tenho preferência.

Café das Minervas – De onde que veio essa ideia do enredo do livro (O Saotur)? Como ela começou ? Você tem uma história bem específica, como a J.K.Rowling (Harry Potter surgiu na mente da autora, durante uma viagem de trem) ? Ou foi algo diferente?

Natalia – Na verdade tem uma cena de batalha nesse livro e ela nasceu de uma música. Dessa música nasceu um personagem e dele começaram a nascer outros e aí começou a florescer a coisa toda. Quando ficou grande demais eu falei, “Vou escrever! ”. E conforme eu fui dando liberdade para os personagens foram surgindo outras coisas. Muitas coisas sobre eles que nem eu sabia. Eu fui escrevendo, aí eu parava e deixava para ver o que ia acontecer.

Café das Minervas – Você publicou o seu livro por meio de uma plataforma online. Por que você decidiu pela Amazon, no formato Kindle? Foi uma questão de ter um alcance maior ou você não queria depender de uma editora?

Natalia – Eu acho que é falta de confiança, mas não tanto em mim e no meu texto, pois eu sei as minhas limitações. Mas eu sou muito control freak, então eu não confio em uma editora para fazer a minha capa. Marketing eu mesma teria que fazer de qualquer jeito. Para não dizer que eu não confio em nenhuma editora para fazer a arte da capa, eu confiara na Dark Side, pois ela tem alguns trabalhos maravilhosos. Como eu sou muito control freak, eu quero saber de tudo e enquanto está se desenvolvendo. Eu sei que em uma editora, isso não acontece!

Café das Minervas – O seu livro é interessante, pois ele é diferente da maioria dos livros escritos por mulheres. Hoje em dia você já consegue perceber que tem uma quantidade maior de escritoras escrevendo ficção científica, fantasia e aventura. Porém, atualmente você percebe que, quando há uma mulher escrevendo nesses gêneros, existe um tipo específico de personagens que elas criam dentro de um determinado enredo, como por exemplo: Jogos Vorazes e Divergente. É legal, porque você consegue ver mulheres escrevendo livros com protagonistas mulheres, mas ao mesmo tempo você percebe que esse tipo de enredo virou quase que uma receita: vamos colocar uma garota que tenha algo de diferente em ambiente pós-apocalíptico. Você começa a perceber que a maioria das escritoras – quando elas vão escrever- acabam indo por esse caminho e optam por personagens que são muito parecidas. Você sente que isso acaba influenciando as autoras que estão surgindo no mercado?

Natalia –   Um dos meus autores de música prefiro – que é o Tuomas Holopainen (da banda Nightwish)- fala que quando ele lê um livro, ele consegue ouvir a música. Eu sou o contrário: quando eu ouço uma boa música, eu consigo ver a história. Então meu foco geralmente não é o personagem, é a história inteira.Tanto que esse livro (O Saotur) é o primeiro e vai haver um segundo, um terceiro e eles tem um arco que vai além das histórias em cada um deles. Minha visão é mais geral e não focada em algo. Mas eu ainda acho que essas autoras que você falou são melhores que esses hots (livros eróticos) que estão saindo por aí ! [Risadas]

Café das Minervas – Sim, ainda é mais agradável ver uma personagem como a Katniss do que outras que outras que existem por aí… Mas parece que as escritoras estão conseguindo crescer nessa indústria, mas também estão investindo só nesses temas. E você pensa: “Será que isso vai evoluir?”, pois você pode criar personagens femininas muito fortes, mas sem ser sempre a mesma coisa. E essa questão é muito complicada. Você como escritora, sente que personagens femininas, quando escritas por mulheres, se tornam menos estereotipadas do que quando escritas por homens?

Natalia – No gênero, não! Eu posso ser uma mulher e escrever sobre um homem que as pessoas podem ler a achar que foi um homem que escreveu. Tanto é que um homem pode escrever sobre o ponto de vista de uma mulher e fazer maravilhas. Tanto que o Stephen King é um deles! Ele pode escrever sobre homens, mulheres, sobre qualquer coisa e ele vai conseguir dar aquele jeito de conectar o leitor com aquela pessoa. O que eu vejo acontecer é ver mulheres projetando seus desejos de poder ser algo a mais pelos seus personagens e não é assim…tem que ser real, tem que ser algo que cresça com o tempo. Não um desejo seu de ser assim, então eu vou escrever assim e pronto. Precisa haver uma história além do personagem.

Café das Minervas – No seu livro as personagens femininas fogem desses estereótipos e são bem fortes. Sobre Lyhty, de onde surgiu a ideia de criar uma personagem como ela?

Natalia – Como falei, eu fui dando liberdade para ela. E como ela representa da jovialidade, eu queria uma personagem jovem, uma personagem curiosa. Alguém que não fosse passar pelo Constantin – ali esticado na praia- e deixasse outra pessoa resolver. Ela precisava ser curiosa antes de mais nada. A partir disso, ela foi sozinha. [Risadas]

Café da Minervas – Você postou na sua página do Facebook uma estatística do número de homens e mulheres que haviam baixados o seu livro (226 mulheres e 87 homens, em 2 de julho de 2016). Algumas pesquisas apontam que muitos homens têm preconceito com livros escritos por mulheres, inclusive com relação á capas, como no caso da autora Maureen Johnson (ela chegou a propor uma troca de capas após receber muitos pedidos de garotos falando para colocar capas menos “femininas” em suas obras para que eles pudessem ler). O próprio preconceito do público acaba criando esse tipo de polêmica. Você sente que as mulheres estão mais abertas a lerem o seu livro e os homens estão um pouco mais tímidos? Eles esperam os comentários para realmente ler o livro e que eles são um pouco desconfiados?

Natalia – São, um pouco mais. Mas mais pelo fato de que geralmente eles não leem os mesmos gêneros e não tem atração por esse mesmo tipo de livro que as mulheres leem. As mulheres – eu gosto de pensar -, elas leem de tudo!  Tudo que puder elas leem, já os homens são mais seletivos, então eles vão querer saber antes do que se trata. Eles vão querer ler antes os comentários, vão analisar a capa, vão analisar a sinopse. Já as mulheres, “Ah, eu gostei da capa! “ [Risadas] .Elas são mais abertas e por isso talvez acabem lendo coisas que não gostam. E não sei até que ponto isso é bom ou ruim. Eu por exemplo, me sinto como um homem, sou mais seletiva. Eu analiso, leio, pergunto, sempre pesquiso antes. Mas sim, homens estão um pouco… Dos homens que leram o meu livro, de todos eu tive um bom feedback. Alguns falando, “Nossa, eu esperava outra coisa, mas você escreveu isso. ”

Café das Minervas – Algum deles já chegou e falou algo que foi mais sincero ou a maioria (dos comentários) foi como esse?

Natalia – Acho que o melhor comentário foi o do meu marido. Porque ele achou que eu fosse escrever sobre circo ou um hot e não esperava que eu escrevesse algo mais… sei lá… unissex, eu acho !

Café das Minervas – Muitas autoras tiveram que mudar seu nome ou assumir um pseudônimo masculino, como é o caso da J.K. Rowling, onde a editora pediu para que ela abreviasse o seu nome porque acreditavam que as pessoas não iriam comprar um livro de fantasia escrito por uma mulher. Se uma editora gostasse do seu livro, mas te fizesse essa proposta, você aceitaria?

Natalia – Não ! Prefiro vender menos, mas não me esconder atrás de uma sigla do que vender horrores e … não sei, acho que se a gente quer algum tipo de igualdade, a gente tem que começar a ir em frente e ir assim mesmo. É uma escolha entre dinheiro e entre o que você acredita. Entre o seu nome, que afinal está ali. Não, não…

Café das Minervas – Alguns autores ingleses costumam abreviar o nome: J.R.R. Tolkien, George R. R. Martin, C.S. Lewis, mas no caso dela foi mesmo porque acharam que ela não ia vender se o livro fosse relacionado à uma mulher.

Natalia – Eu acho que se eu fosse abreviar, seria por causa do meu sobrenome, que é não é tão fácil de pronunciar, sabe… só isso !

Café das Minervas – Hoje em dia tem muita escritora que está entrando nesse ramo da fantasia e ficção científica. Esse ano, no prêmio Nebula (um dos maiores prêmios da literatura de ficção científica), a maior parte das categorias do concurso foram vencidas por mulheres. Mas ao mesmo tempo você sente ainda esse tipo de preconceito. Você acha que todo esse quadro está indo por um caminho positivo?

Natalia – Com certeza ! Cada vez mais a gente vê que esses sucessos brotando por aí são femininos, então não adianta mais ficar falando que homem escrever melhor ou que mulher escrever melhor. Não, eu acho que isso vai de pessoa para a pessoa e de gosto para gosto, não tem nada a ver ser homem ou mulher. Depende muito da criatividade, pois já vi muitas mulheres escrevendo coisas horrendas. Assim como homens escrevendo coisas horrendas também, então não tem mais a ver isso aí. Só que isso que quem precisa entender são os leitores, né? Entre os autores, a gente já sabe que não é uma questão de ser homem ou mulher, é questão de ter talento e ter inspiração para fazer isso. Mas acho que a gente está caminhando para algo bem melhor.

Café das Minervas – Como autora e como leitora , o que você acha do mercado nacional literário no momento? O que você acha da qualidade dos livros e o que você sente quando entra em uma livraria?

Natalia – Eu acho isso muito triste… das editoras hoje se filiarem a um autor. Antigamente a minha ideia era que eu – como uma autora desconhecida – fosse mandar meu livro para várias editoras e elas me apresentariam para o seu público, não é?  Para promover e ganhar dinheiro com isso, mas hoje é o contrário ! Então é triste saber que quem tem mais seguidores, mais fãs vai ter seu livro publicado, independente se é bom ou ruim. Isso me deixa muito triste e é a pegada que estou vendo hoje. Não generalizando, mas uma porcentagem bem alta do que eu vejo é isso. Esse também é um dos motivos para eu não procurar uma editora. Não tenho interesse e se fosse para assinar um contrato, seria híbrido e sem essa de se afiliar 100% a mim. Sem contar que, se a gente (os autores) teve que evoluir, porque agora a gente precisa arrumar o nosso público, fazer o trabalho árduo para depois a editora chegar e “chupinhar” ? Então a editora deveria se adaptar também, não é? E começar a pagar melhor, rever o contrato, financeiramente falando. E não é isso que acontece ! Eles oferecem oito, dez, quinze por cento e olhe lá, né?

Café das Minervas – Com essa questão de você poder lançar o seu livro na internet, você não fica dependendo da editora. Tem a questão financeira, mas você também tem a liberdade de não precisar delas. Você acredita que esse tipo de caminho possa mudar o ramo literário, assim como a internet mudou o ramo da indústria fonográfica?

Natalia – Acho que está com meio caminho andando já. Mais autores nos Estados Unidos estão deixando de lançar com editoras para lançar na Amazon. Eu vejo isso acontecer e sim, já está com meio caminho andado e ainda vai continuar evoluindo para isso. Realmente, ou as editoras se adaptam ou elas vão continuar perdendo. Quem hoje ainda não se arrisca na Amazon por conta própria são os antigões, os mais velhos. Pessoas que já estão muito bem alocadas na editora e são um nome na editora, então essas não vão querer saber. Então, eles precisam renovar, mas está meio caminho andado.

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Gostou da entrevista da Natalia e quer ler “O Saotur” ? Clique aqui para ser direcionado para a página do livro na Amazon.

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Texto e entrevista por Laís Sauerbronn

562781_479354222076907_2097871124_nLaís é formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Resolveu fazer um curso de Jornalismo Cultural e criar um blog onde pudesse compartilhar textos de outras mulheres tão diferentes e opinativas quanto ela. Nerd de carteirinha e amante de livros e filmes, nasceu ligada nos 220 volts e é uma implicante nata, sempre pronta para dar sua opinião, por mais polêmica que ela seja.

2 comentários sobre “Um papo e um café com Natalia Sminorva Moraes

  1. Amei a entrevista! A Nati é uma linda que merece todo o sucesso do mundo e mais um pouco!

    Leiam O Saotur! Garanto que não vão se arrepender! ☺

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