Zine Mil Palavras – Dezembro de 2017

No dia 1/12, a artista e escritora Gisela Zaffalon Bobato me convidou para participar do Sarau e Exposição O Universo Feminino, aqui em São José dos Campos. No evento, ela expôs suas maravilhosas ilustrações e nosso sarau foi um momento muito emocionante.

Para poder divulgar meus textos e canalizar a ansiedade que tomou conta de mim, criei a primeira edição do zine Mil Palavras, uma versão miniatura dos pensamentos que povoam minha mente. Impresso em folha A4 frente e verso, o zine tem um formato parecido com um folhetinho. Nessa edição, incluí apenas textos meus, mas nas próximas pretendo convidar escritoras e ilustradoras da região.

A partir do ano que vem, as edições serão publicadas no meu site Mil Palavras por Dia, no meu perfil no Medium e aqui no Café das Minervas.

Espero que curtam!

zine-1

 

Nascimento

Maria tornou-se mulher ao sangrar pela primeira vez. Foi tarde, aos dezesseis, que o ciclo da lua brotou de seu ventre. Foi um alívio – ela achava que era impossível ser mulher sem esse sangue lunar, sem as contrações involuntárias, sem a dor e as queixas compartilhadas com as amigas.

Ela ainda não sabia que para ser mulher não bastava esse sangue do corpo. Tinha que sangrar pela alma.

Sangrou muito antes, aos dez, quando um homem sussurrou “gostosa” em seu ouvido, em frente à padaria. Maria não sabia o que aquela palavra insinuava, mas todos os dias a ouvia, até que partiu para outra vizinhança. Era apenas uma criança.

Tornou-se mulher antes de vir a ser uma mulher, de fato. Quando, ao voltar da escola, testemunhou o padrasto em pleno ato de espancar a mãe até a morte. Por sorte, ele fugiu de casa e Maria pôde chorar em paz, e chorou ainda mais ao ver a irmã seguir o mesmo caminho – dessa vez, com seu sobrinho, um anjo que ainda nem sabia falar.

Sentiu-se mulher ao reconhecer a vida da mãe e da irmã pulsando dentro de si, fluindo como um rio, uma jardineira de rosas vermelhas cobertas de orvalho. Tornou-se mulher quando sangrou as salgadas lágrimas da saudade.

 

Tempo amigo

O tempo, dizem, é um vilão, origem de terríveis medos e neuroses profundas. Dizem que é preciso disfarçar sua passagem e suas pegadas com camadas de pó, cremes, incisões, destruindo a transformação que ele nos proporcionou.

O tempo, dizem, nos faz sumir aos poucos.

Mas ele não me ameaça. Eu o vejo como um instrumento de lapidação, incansável em sua busca por me tornar uma mulher melhor. E o tempo não tem pressa, ele senta ao meu lado e me transfigura sem medo de que as coisas acabem.

Porque o tempo mora na eternidade.

Eu o vejo estampado nas rugas, nos cabelos brancos, nas expressões que se perpetuam no meu rosto. Nada disso é motivo de lamento. Porque também vejo o tempo marcar meu amadurecimento, mostrando nas cicatrizes da alma uma forma menos desesperada e mais sutil de levar a vida.

O tempo é meu amigo, meu parceiro, mistério e mestre supremo da minha existência.

 

Com licença poética

(Adélia Prado)

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado, Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 11.

 

“Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem

Quando uma pessoa vive de verdade todos os outros também vivem”.

Clarissa Pinkola Estés – A Ciranda das Mulheres Sábias

 

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Composição

Sou feita de partes. Uma face pacata, um corpo redondo, duas pernas cansadas, barriga flácida. Traços azulados percorrem meus tornozelos e coxas, como rios delicados de um mapa hídrico.

Meu espírito é um apêndice, quase desprendido da matéria mascarada.

Sou uma colagem de fotografias recortadas, um mural de lembranças em tons de sépia.

Fui feita para me tornar inteira, passar a vida buscando ordenar esse quebra-cabeça e criar uma composição perfeita do retrato da minha alma.

 

Sou gorda, resisto

“Como ousas, mulher, sair da gaiola em que te colocamos? Quem te deu permissão para te achares bonita, quando o mundo todo grita o contrário?

Como ousas ocupar um lugar que não te pertence, ou mais espaço do que reservamos para ti? Como ousas amar teu próprio corpo sem limites?”

Meu compromisso de resistência se renova a cada vez que essas vozes me gritam “gorda” em tom de ofensa. Concentro minhas energias na tentativa de reverter esse cenário, com as armas que tenho. Com minha vivência, meu corpo, minha vida. Sou a prova viva de que o amor próprio é a única solução, então, não há por que perder a valentia.

Mulheres, sejamos ousadas! Tenhamos a coragem de romper as barreiras e abraçar a nossa pele com o amor que merecemos. E que as nossas energias jamais se percam em um propósito inatingível – o de ser aquilo que não somos.

Somos fortes, e resistimos.

(Trecho do texto Sou gorda, resisto, publicado no Café das Minervas)

 

Not for sale

Minha luta não está à venda. Porque o preço que paguei para chegar até aqui foi muito alto, foi sangue nosso, coletivo, de mulheres que caíram no esquecimento.

Não há dinheiro no mundo que sirva de recompensa por queimar na fogueira, por ser silenciada, humilhada, vilipendiada e suportar as mazelas dos fardos involuntários.

O que esse sistema tem para oferecer são apenas migalhas jogadas ao vento.

Estou cansada de ver empoderamento nas vitrines, como produto numa loja de departamento.

Não se vende garra ou autoconhecimento. É um caminho que se constrói dia após dia, com o suor da própria dor.

É como tentar vender o amor.

Dinheiro nenhum está à altura das cicatrizes ou do peso que carrego em meus ombros flagelados.

Estou farta de ver minha luta virar alvo do lucro, da indústria que massifica e destrói toda a beleza da vida, que nos transforma em gado.

Minha voz não está à venda. Só troco minha luta pelo direito de existir sem a sombra do medo.

 

Cara limpa

Um rosto sem maquiagem também é uma forma de se proteger contra o mundo, um elmo translúcido num campo de batalha imaterial.

Com a nudez da face, revelo a verdade sobre minha pele, confesso minha própria existência. De cara limpa, conquisto a autoconfiança subindo degraus trêmulos, que se firmam a cada passo. Essa mulher de rosto nu sou eu, a com os lábios pintados também. Somos várias e uma só, cada qual com sua máscara.

(Trecho do texto Cara Limpa, publicado no site Café das Minervas)

 

Versão em PDF :http://bit.ly/2BW5jM8

 

Mil Palavras

Edição 1/2017

Imagens: Freepik e Unsplash

Textos: Mariana Zambon Braga

www.milpalavraspordia.com

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facebook.com/marianazbraga

$ Distribuição gratuita $

 

Texto por Mariana Zambon Braga

Mari Zambon

Nascida no litoral, habitante do interior. Tradutora formada em Letras pela Universidade de São Paulo. Acredita no poder de criar universos inteiros apenas com palavras. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Já traduziu muitos livros, mas ainda não escreveu nenhum.

Página do Facebook : Mariana Zambon Braga

 

 

 

 

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